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Capítulo III
Capital, dezembro de 2020
Confesso que vigiar aquela casa azul, em frente a minha, havia se tornado quase um vício. Quem seriam aqueles três homens estranhos e quietos? Fred sempre aparecia durante o fim da tarde para correr, olhava rapidamente para a minha janela, sorria, me abanava e saia para o seu treino. Claro que era coincidência eu sempre estar próxima a janela nesses horários. Meu Vô não falava muito dos vizinhos, só dizia que pareciam gente boa, de confiança. Não sei a quem eu havia puxado tão curiosa, dele é que não era.
A vida ia aos poucos voltando a um novo normal. Máscaras ainda eram importantes, distanciamentos, evitar aglomerações. Mas com a vacina, a vida continuou. Infelizmente muitas mortes haviam ocorrido, e a cada reencontro um misto de alívio e tristeza eram evidentes. Parecia encontros de sobreviventes.
As aulas na faculdade voltaram. Era hora de sabermos quais seriam os escolhidos para fazer parte do jornal da faculdade. Eu sentia que poderia ter uma dessas vagas, havia me debruçado com muito esmero na minha coluna. Agora era só aguardar.
-- Ansiosa, Lyz?
-- Um pouco, Fred. -- eu estava meio obcecada na verdade, passava várias vezes pelo mural ao lado da sala da editora do jornal. E na maioria das vezes, Fred estava junto.
-- Vai acabar afundando o chão de tanto ir e vir aqui. -- ele chega ao meu lado, ajustando seus óculos, uma mania que ele tinha.
-- engraçadinho. - falo fingindo uma risadinha debochada. - Só quero ser uma das primeiras a ver a lista.
-- eu sei, eu sei. - ele se aproxima do cartaz com o anúncio do edital. - aqui está dizendo que o resultado saí até amanhã.
-- Exato, meu caro. - falo imitando Sherlock Holmes - Até amanhã pode ser hoje.
Saímos dali rindo da minha ansiedade, a nossa próxima aula seria de filosofia moderna, e éramos colegas. Fred se tornou um grande amigo desde aquela queda. Nos víamos na rua, nos corredores da faculdade, em algumas aulas compartilhadas entre nossos cursos. Ainda quando estávamos em isolamento, encontrei o perfil dele nas redes sociais, e começamos a conversar. Descobri um pouco mais sobre os vizinhos quietos. Fred morava com seus pais, Murilo e Amir, que também eram da área de direito. Ambos trabalhavam na área civil, e trabalhavam em casa, em um escritório próprio. Haviam se mudado para a nossa cidade pelo aumento de casos do escritório de seus pais, e também, por quê Fred havia passado no vestibular para a nossa faculdade.
Nossas conversas online passaram para passeios ao final da tarde. Enquanto eu levava o meu cachorrinho para passear, leve fazia seus treinos de cárdio. Com o retorno das aulas, me oferecia carona nos dias em que tínhamos aulas, o que era quase sempre. Nos ajudávamos nas atividades, eu o ajudava a corrigir muitos artigos, e assim, Fred começou a fazer parte da minha rotina.
Eu não sei se sentia algo a mais por ele, às vezes achava que sim, outras só o via como amigo. Ele nunca tentou nada, e também não aparecia com ninguém. Minhas amigas da faculdade até faziam piadas sobre nós, mas eu não dava atenção. A presença dele na minha vida me deixava mais segura, sabe.
-- você está apaixonada por ele, Lyz. - repetiam sempre que eu começava a contar algo que havíamos feito juntos.
-- não comecem gurias. Somos só amigos. - eu ficava envergonhada com as brincadeiras, não que eu pensasse que estar apaixonada por ele fosse ruim, mas não via Fred assim. - Acho até que ele é Gay.
-- Gay, Lyz?! - ficam espantadas. - Ele te contou algo?
-- Claro que não, gurias. - depois que falava me arrependia, afinal, não era certo ficar falando sobre a orientação sexual de alguém assim.
Desconversava e mudava de assunto. Fred parecia estar sempre próximo quando eu mais precisava. Se o meu lápis caísse no chão, ele aparecia para juntar. Se eu tropeçasse, lá estava ele para me segurar. Quando eu tive minhas crises existenciais, lá estava ele para me acalmar.
No fundo, eu estava realmente apaixonada por ele. Mas não queria perder ele, caso o sentimento não fosse recíproco. Por isso congelava meus sentimentos, e saboreava cada segundo ao seu lado.
Mas às vezes era difícil não demonstrar...
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| Lisi Olsen Lisi Olsen é uma pedagoga, profissional de letras, contadora de histórias, escritora, pesquisadora, ilustradora, bailarina, nerd e apaixonada por leituras, que usa da palavra e do desenho para expressar os seus devaneios. |



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