
De como virar brasileira
Minha avó sempre dizia que por pouco não nasceu brasileira. O avô dela, em 1902, havia embarcado num navio pras Américas em busca de uma vida melhor. As coisas na Europa não andavam muito legais. Foram as más colheitas e os surtos de epidemias por lá, junto com as promessas de terras e emprego vindas daqui, que lhe deram a coragem necessária para enfrentar uma viagem de três meses de barco e trem para um lugar desconhecido do outro lado do mundo. Uma vez instalado, iria trazer esposa e filhos. Na lógica da minha vó, se tudo tivesse dado certo, ela teria então nascido aqui. Mas não deu: pouco depois da chegada daquele meu tataravô em terras novas, ele morreu de leishmaniose. E foi só por isso que minha vó acabou nascendo na Alemanha e não no Brasil. Foi por um triz. Ela contava essa história com um misto de orgulho e melancolia.
Quem sabe, se tivesse dado certo, eu também teria nascido aqui. E se tivesse nascido aqui, já seria brasileira. E se já fosse brasileira, na semana passada não teria precisado fazer a prova de português, que é um dos itens na lista de requisitos para a naturalização. Sim: noventa e seis anos depois da minha avó não ter nascido no Brasil, aos quarenta de idade e após oito morando aqui, resolvi tirar a carteirinha. Quando não se nasce brasileira, torna-se.
Superados os devidos e esperados perrengues para acessar a plataforma do órgão mais ou menos competente — no fim das contas, não cheguei ao Brasil ontem —, consegui me inscrever na prova, dar um jeitinho para receber o boleto de pagamento por outros meios — já que pelo sistema supostamente automatizado não chegava nunca —, pagar uma taxa salgadinha com prazo de vencimento de dois dias, e, finalmente, ser homologada junto com outros noventa e nove estrangeiros que, assim como eu, também tiveram que dar seus pulos e seus jeitinhos. Como já dizia minha professora de português em Berlim: dar um jeitinho é requisito necessário para quem quiser virar brasileiro.
Então, na manhã da terça passada, lá estava eu, meia hora antes do início da prova escrita, já tirando o relógio de pulso e desligando o celular, enquanto entrava na fila em frente à sala 246 do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC em Floripa. Quando foi minha vez de mostrar o documento de identidade e receber o saquinho para guardar celular e relógio, a chefe de sala olhou com uma cara estranha pro meu passaporte:
— Esse documento é de onde?
— Da Alemanha.
— Preciso de outro.
Não adiantou explicar que segundo a plataforma — aquelazinha mesma — deveríamos apresentar o mesmo documento utilizado na inscrição. Tampouco argumentar que estava ali justamente para me tornar brasileira e, sendo que ainda não era — porque se fosse, nem precisaria fazer a bendita prova —, não tinha como já possuir um passaporte brasileiro. Aqui entre nós, acho que depois dessa última frase com subordinadas, conjunção causal, gerúndio, oração incidente, perífrase verbal, utilização do pretérito imperfeito do subjuntivo e futuro do pretérito, assim como adjetivo irregular anteposto, ela bem que poderia ter me liberado da prova e dado logo o certificado. Mas ela nem se impressionou. Quem sabe sentiu falta do infinitivo pessoal. O que fez foi chamar o supervisor, que finalmente deu um jeito de me colocar lá dentro.
Três horas mais tarde, com o cérebro já bastante espremido e uma cãibra iminente na mão, eu virava a página para ler a quarta e última tarefa. Até agora havia escrito um pedido ao presidente da Associação de Moradores solicitando a implementação de armários coletivos no bairro, uma carta aos associados de uma cooperativa de produtos alimentícios artesanais — dessa vez, a presidenta era eu — com informações sobre um novo selo de qualidade para o ramo, e — agora como assessora de imprensa — um texto para o site da Prefeitura de Petrolina em homenagem à presidenta de uma associação de agricultores. Já assim meio desnorteada após assumir tão variadas identidades e profissões em tão pouco tempo, virei a página para a última tarefa. Sorri assim que comecei a ler o enunciado: “Escreva uma crônica...”.
Ao que parece, para ser oficialmente brasileira — além de falar português e dar um jeitinho quando necessário —, a comissão julgadora de brasilidade avalia de forma positiva que se saiba escrever crônicas. Tenho pra mim que é um bom sinal. Trinta e cinco minutos depois, tocou o sininho. Saí da sala aliviada, fui almoçar e dormir. À noite ainda tinha a prova oral.
O resultado só sai daqui a dois meses. Mas vai dar certo. Viu, vó?
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| Yvonne Miller Foto: Thaís Vieira |
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| Arte:Waldemar Max |

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