
Armadilha de Vênus
Se tem uma coisa que não herdei do meu pai foi seu dedo verde. Mas, como fui criada num apartamento de cidade, também não senti muita falta. Diferente dele. Não sei se o jeito que ele tem com plantas foi influenciado pelo fato de ter crescido numa casa com jardim, onde na adolescência ele e meu tio se escondiam para fumar. Mas sei que, no apartamento onde cresci, ele aproveitou sacada, parapeitos e até o fundo da sala para encher de vasos. Ali, perto do janelão, cultivava até pequenas árvores — tenho lembranças nítidas de um fícus e uma palmeirinha —, enquanto a sacada era reservada para seus tomatinhos e ervas de cozinha. E era lá onde eu, na adolescência, me escondia com minhas amigas para fumar cigarros caseiros. Meu pai não desconfia até hoje o que acontecia com a sálvia e o orégano dele. (Crianças, não repitam esse experimento em casa!)
Alguém pode dizer, então, que mesmo eu tendo nascido sem dedo verde, poderia ter adquirido um, sei lá, por osmose, pois vivia rodeada de plantas. E é verdade. Mas de alguma forma as plantas, que nem a cozinha, eram sempre as áreas do meu pai. Eu não aprendi a cuidar delas, a regar e deixar pegar sol na medida certa, a entender sua linguagem de folhas murchas ou manchadas, muito menos a plantar. Mesmo na cozinha, só fui ter minhas primeiras experiências de macarrão parafuso e molho pronto aos dezesseis anos — passada a fase dos cigarros caseiros, eu nem me lembrava do orégano na sacada, o que poderia ter pelo menos agradado um pouco mais o paladar — e há quem afirme até hoje que eu não sei cozinhar. (Mentira.)
Tudo isso não significa que não goste de plantas. Gosto. Gosto desde que, aos onze anos, ganhei minha primeira planta-presente do meu primeiro namoradinho, um menino mexicano da minha sala. Dias antes ele tinha me perguntado se eu queria namorar com ele e eu, sem motivos pra dizer não, disse que sim. Então veio a sexta-feira e, depois das aulas, ele me acompanhou até em casa. Lá ficou enrolando, transferindo o peso de um pé para o outro, até que finalmente tirou um embrulho da mochila, enfiou na minha mão, balbuciou alguma coisa sobre aniversário de uma semana de namoro e saiu chispando, o rosto todo vermelho. Ainda lembro do frescor agradável da escadaria, do cheiro de verão entrando pelas janelas, da pele arrepiada e do coração batendo forte enquanto subia os quatro lances com o embrulho disforme nas mãos, tentando adivinhar o que encontraria atrás do papel de presente. Esperei até chegar no meu quarto para abrir e lá eu vi: era um pequeno cacto. O primeiro de uma coleção. O namoro não sobreviveu à semana seguinte, mas meu encantamento por cactos ficou.
Foi mais ou menos nessa época que meu pai inventou de cultivar plantas carnívoras. Nativas dos trópicos e acostumadas com um ambiente quente e úmido, não era nada fácil mantê-las vivas no clima temperado e seco da Alemanha, e meu pai teve que gastar seu dedo verde, bastante tempo e algum dinheiro para que se sentissem em casa. Mas valeu a pena: as bichinhas eram fascinantes mesmo. Quando dava a sorte de algum inseto entrar no terrário, ficávamos nós quatro — meu pai, minha mãe, minha irmã e eu — grudadas no vidro para observar. Umas pareciam delicados jarros, com tampa e tudo, onde o infeliz entrava e não conseguia mais sair. Outras tinham cara de matinho inofensivo: cresciam perto do chão e eram cobertas por gotinhas pegajosas, que aprisionavam o animal azarado. E tinha aquelas, as mais diferentonas, minhas preferidas.
Dia desses, estava no supermercado aqui no interior de Santa Catarina, quando as vi. Reconheci na hora, não precisei nem ler a etiqueta enfiada na terra do pequeno vaso: Dionaea muscipula — Armadilha de Vênus. Não tinha como não comprar.
Agora, enquanto espero a inspiração chegar, nos observamos mutuamente; eu na mesa do quarto de escrever, ela no parapeito da janela. E, sim, finalmente um bichinho voador se aproxima pelo ar, atraído pela cor avermelhada. Junto com ele vêm as lembranças da infância: o apartamento dos meus pais, os vasos nos parapeitos, na sacada, a sala imitando uma microfloresta, o terrário sobre a mesa, minha primeira planta-presente.
O ingênuo inseto pousa sobre uma das folhas abertas e eu pouso meus dedos sobre o teclado. Se ele encostar nos pelinhos sensoriais, a Vênus fechará sua armadilha — e eu terei uma crônica.
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| Yvonne Miller Foto: Thaís Vieira |
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| Arte:Waldemar Max |

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