
Mundo estranho

Um homem trabalhava em uma
fábrica de pães que vendiam pães horríveis. Tudo feito com o pior tipo
material, a maioria sobras, para ter o preço mais barato sem diminuir o lucro
do patrão. Validade era coisa que nunca foi levada em consideração por ali.
Como todo funcionário mal remunerado, o salário não chegava até o final do mês.
A partir do dia vinte era filme de terror. Fim do mês é luta pela
sobrevivência. Não tinha mais o que cortar. Não existe matemático que resolva
este problema. A última refeição tinha sido o caldo ralo do dia anterior e
sabia que não teria o que comer ao retornar para o quartinho úmido e mofado que
comia a metade dos parcos recursos que recebia como serviços gerais da fábrica.
O dinheiro tinha de estar na mão no dia certo para não acabar com seus paninhos
de bunda disputando algum espaço nas marquises que protegiam das chuvas que
caíam naquele outono cinzento. O maldito dia do aluguel. Mas sabia de uma
ocupação que estava acontecendo no centro e parecia uma boa opção.
Voltemos ao caso da fome e que
era o caso do dia. Uma daquelas coisas que não se resolve depois. No dia
seguinte já é tarde demais. Não ficaria rodando em cima do pedaço de espuma
velho que lhe servia de colchão, piorando o estado de sua hérnia de disco.
Lutando contra os infortúnios da fome. O filme de terror era hediondo e real.
Como não estava habituado ao furto, tomou todos os cuidados para que a
atividade não deixasse rastros. Não havia outro jeito. O estômago aguentaria,
no máximo, até cruzar os portões da fábrica e ganhar distância suficiente para
rasgar o saco e empurrar aquelas coisas vendidas como “Pão de Forma Fino e
Fofinho”, o pão FFF. Já sentia os farelos secos entalando na garganta, causando
engasgos e dificultando a respiração. Tudo era melhor que a fome. Não passaria
por isso de novo. Se pudesse sair um pouco mais cedo, pegaria a distribuição de
quentinhas feita pela igreja da região. Mas aí seria descontado e entraria para
o grupo de risco. O mais fácil, realmente, seria arrastar o saco quando ninguém
estivesse olhando, enfiar sob o casaco e fingir que precisava usar o banheiro.
Enfiaria rapidamente na sua mochila que ficava ao lado do sanitário e era só
esperar terminar o turno para sanar aquele mal estar enlouquecedor. E olha que
ele nem estava assim a tanto tempo. Pensou nas pessoas que lutam contra esse
inferno a cada dia, por semanas... É impensável, inimaginável. Existe os que
dizem que isso não existe mais no Brasil. Mas estamos vivendo em tempos assim.
Cada um inventa e acredita na realidade que lhe faz sentir melhor.

Tudo poderia ter dado certo se
não tivesse esquecido da nova câmera colocada no canto direito. Foi demitido
por justa causa. Antes, é claro, foi humilhado pelo patrão, chamado de ladrão
pé de chinelo. O velho gordo e sovina ameaçou de chamar a polícia e disse que
ele devia agradecer por não passar os próximos tempos vendo o mundo da
janelinha.
Saiu sem o pão e sem o
emprego. Aquela imagem do desgraçado metendo o dedo em sua cara...
Ouvi a história pensando na
dificuldade que o ser humano tem de romper as barreiras implantadas por este
sistema perverso, nos formando para sermos brutos e egoístas, gananciosos
estúpidos, cegos oligofrênicos...
Será que o dono da fábrica não
pensou por um minuto que para o sujeito roubar aquela porcaria que é produzida
ali, é porque ele realmente está em desespero? Que para pensar em comer aquela
fonte inesgotável de mal estar e azia, é porque está realmente com fome ou
porque conhece os horrores desta e vê a possibilidade de passar novamente pela
experiência indesejada? A resposta a essas e outras perguntas do tipo é NÃO,
ELE NÃO PENSA NO PRÓXIMO, NUNCA NEM OUVIR FALAR EM EMPATIA. O mais longe que
ele pode ver é seu umbigo quando vai tirar as bolas de sujeira deste.
Mas nada disso tem importância. São apenas devaneios, loucuras, viagens, pensamentos incendiários que povoam as reflexões dos inconformados que resistem bravamente, enquanto lutam pelo básico para a manutenção da sua sobrevivência.


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