Reflexões de um Inconformado - Pensamentos Incendiários

 

A iconoclastia blasfema de pensar e duvidar caminhando de mãos dadas com o questionamento curioso e a percepção do óbvio

Certa vez, em uma de minhas mudanças por essa vida nômade e misantrópica que levo, descolei um trampo noturno em um lugar enorme e mal iluminado, com vários espaços. Normalmente trabalhava sozinho e, assim que comecei, os colegas sempre me falavam de aparições, figuras fantasmagóricas e barulhos sinistros pela madrugada. Eram pessoas que não pareciam mentirosas ou com necessidade de chamar a atenção.  Falavam com um olhar assustado e verdadeiro sobre suas experiências sobrenaturais no lugar, como quem previne um recém chegado para que ficasse preparado. Nunca vi nada durante os meses em que trabalhei por ali. Os barulhos que ouvia durante a noite normalmente vinham dos ventos noturnos e galhos de árvores e arbustos que cercavam o lugar. Por ser uma área verde, muitos animais também circulavam pelo terreno, derrubavam coisas e pulavam no telhado.

Morei, certa época, no quarto de uma casa que era vizinha de um cemitério.  Meu quarto tinha uma janela que dava para o muro dos fundos.  Era um muro baixo que me permitia ver as cruzes, estátuas e certos detalhes daquele ambiente. Muitos vizinhos contavam histórias. Pessoas idosas que gozavam de certa credibilidade narravam verdadeiros contos de terror. Igualmente nunca tive nenhum contato com o sobrenatural. Foi uma época bem sossegada, por se tratar de uma vizinhança sossegada e silenciosa e que, ao mesmo tempo, não reclamava quando eu colocava o som alto de manhã cedo e ouvia até de noite. Fica a dica: Se algum dia o seu vizinho mais próximo for um cemitério, vale muito a pena.

Escrevendo estas linhas, lembro de quando era criança, em Niterói, Rio de Janeiro, e alguém viu a aparição de uma santa em uma árvore e o lugar era constantemente visitado por uma quantidade enorme de pessoas que ficavam esperando a tal aparição. Um parente me levou para ver a santa. Ficamos um longo tempo olhando para a árvore, contra o Sol. De vez enquanto alguém caía de joelhos gritando ter visto algo. A memória seguiu me trazendo recordações como estas, onde nunca vi nada.

Atualmente estou em outro trabalho noturno, mas neste, normalmente trabalho com mais dois ou três colegas. Volta e meia algum deles relata sons estranhos ou sensação de estar sendo observado. Sempre dou um sorriso incrédulo e digo não estar vendo ou ouvindo nada estranho. "Para quem acredita em fantasmas, sempre se arruma um jeito de ver um." Observava brincalhão. Um deles, certa noite, me chamou para ouvir uns estalos que vinham da cozinha que estava vazia naquela hora. Aquilo realmente era estranho. Comentei com ele que talvez fosse algo na parte elétrica e que devíamos comunicar a manutenção. Ele retrucou insatisfeito: "Para quem não quer acreditar no que está ouvindo ou vendo, tudo sempre será outra coisa". Argumentei que não é porque não conseguimos explicar ou entender uma coisa que vamos nos apegar a resposta mais fácil. Descobri, no dia seguinte, que aquele barulho era a geladeira descongelando com o som sendo ampliado pelo silêncio da madrugada.

Como sempre busco entender as coisas através de questionamentos e nunca me satisfaço com a primeira versão de qualquer fato, com muita frequência me perco em minhas reflexões, com o pensamento seguindo em várias direções, analisando cada pontinho, fato, sem pressa de chegar a uma conclusão. Um dos caminhos que este exercício constante me levou foi imaginar que provavelmente foi assim que surgiram as primeiras religiões. Em uma época onde não existia ciência, a sede de respostas levavam o ser humano, esta criatura que tende a querer entender tudo, a explicar o mundo através do fantástico, criando figuras mágicas  e folclóricas, satisfazendo assim sua curiosidade momentânea.

Deus estaria no céu, os anjos nas nuvens, diziam quando ainda não existia avião.  Hoje passeamos pelos céus e pelas nuvens e nada é visto. Daí disseram que este céu ficaria mais alto. Nenhum satélite ou astronauta registrou de forma sólida, concreta, nada do tipo. Hoje há quem diga que este céu fica ainda mais alto e os que sustentam que é outro plano que não pode ser visto quando passamos pela tal morada dos deuses.

Estive comentando sobre com um parceiro de boteco que em tentativa desesperada para defender a realidade fantástica em que fora ensinado a acreditar sem questionar desde criança, rebateu que a ciência não explica tudo.  Realmente tudo é muita coisa, mas hoje ela já explica mais que ontem e com os estudos contínuos sobre certos assuntos, ela explicará ainda mais amanhã.

Claro que seguindo o cacoete de se apegar ao caminho mais fácil, me rotulou logo de ateu. Expliquei que já me identifiquei bastante com o ateísmo, mas que hoje não mais. Sustentar a crença que não existe já me parece um apego tão grande a uma ideia pronta quanto a crença que existe. Mas ficam as questões: Se Deus existe, de onde ele veio? Teria uma criatura mais poderosa ainda que ele para o ter criado? Antes de criar o mundo, com o que se ocupava? Se ele é todo bondade e poderoso, porque tanta perversidade e miséria? Porque aprender pela dor? Se ele criou tudo, não podia ter inventado uma maneira melhor de aprendizado? Se ele sabe de tudo, sabia o rumo perturbador que as coisas tomariam, então porque fazer tudo desse jeito mesmo assim?... Teria de fazer uma coluna só de questionamentos se fosse colocar todos aqui. Sei que existe aquela velha resposta pronta: "São os mistérios". Se existem mistérios, eles precisam ser devidamente desvendados e não conheço nenhum caminho mais crível para isso que a ciência através de seus métodos, testes e pesquisas.  Não sou daqueles que transforma a ciência em nova religião ou que não questione o que vem a partir dela, mas é o que temos de mais concreto até o momento. É o que não satisfaz com discursos fantásticos, convenientes ou fáceis. Precisa de ter comprovação e isso é necessário para não cairmos na lábia dos que exploram pessoas tão desesperadas ao ponto de se apagarem a qualquer fala que sirva de bengala e afaste o vazio existencial.

Vamos continuar cutucando a ferida no decorrer.

 



O escritor Fabio da Silva Barbosa, um dos membros mais antigos e ativos do ColetiveArts  (foi dele a coluna Malditos Teclados Bailarinos).Dono de um olhar cirúrgico, Fabio é um verdadeiro cronista do underground, caminha pelos becos e bares da vida, que depois transforma em textos que são verdadeiras pedradas nas janelas dos "donos da moral e dos bons costumes". Também é dele um dos maiores fanzines do Brasil, o seminal Reboco Caído.



"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."



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