DEVANEIOS EM ARTE

 Filha da Máfia

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Hoje:
Capítulo IX
Sem saída
Mensagens de texto:

Lyz: “Amiga, cadê você? Não tem ninguém na lanchonete, nem abriu ainda.”

Luísa: “Como não abriu, amiga? Que estranho. Tô chegando, me espera no estacionamento ao lado.”

Lyz: “Com certeza vou te esperar naquele beco sem saída...”

Luísa: “Confia, amiga. Tô chegando...”

Fred não sabia como tinha chegado tão rápido à universidade. Precisou rastrear o celular de Lyz para encontrar sua localização. Era muito estranho ela ir para um prédio praticamente abandonado como aquele. Só podia ser coisa dele. Enquanto corria, Amir mandava mais informações: o imóvel onde Lyz estava tinha sido alugado para ser uma lanchonete. A Lanchonete do Nora. Fred sentia que o rival estava mais perto do que nunca e precisava proteger sua amada.
— Lyz?! — avistou o perfil dela de longe, indo em direção à lateral do prédio. — Espera, Lyz!!!
Enquanto se aproximava, notou que havia um certo movimento no local. As luzes estavam apagadas, mas tinha alguém lá dentro. Lyz, mesmo contrariada, caminhou para o tal estacionamento. Ao ouvir seu nome quando estava quase passando pela entrada, virou-se.
— Fred?! — abriu um sorriso quase involuntário. — Que maravilhilha que pôde vir junto. A Luísa te chamou também?
— A Luísa? — Fred estava começando a entender. — A Luísa perdeu o celular ontem, Lyz. Lá na festa.
— Não, Fred. Ela me mandou mensagem — mostrou a tela do aparelho com a conversa. — Ela já deve ter encontrado.
— Não sei, acho melhor irmos à casa dela verificar. Vamos?! — Quando ele foi pegar na mão de Lyz, ouviram um carro derrapando bem na entrada do estacionamento.
Fred abraçou Lyz por impulso para protegê-la. O carro logo cantou pneu e sumiu, como se estivesse procurando alguém. O celular dela vibrou. Uma mensagem no grupo das amigas da faculdade:
“Oii gurias, aqui é a Luísa pelo celular da Manu. Perdi o meu celular ontem e estou indo comprar um novo. Bora tomar um sorvete no shopping?”
Lyz leu o texto e olhou para Fred, que acompanhou a leitura. Ela começou a tremer. Vendo o início de um ataque de pânico, Fred a abraçou e tentou acalmá-la.
— Deve ter sido um daqueles golpes, minha linda — disse, acariciando os cabelos coloridos dela. — Já está tudo bem agora.
— Mas e aquele carro, Fred? — Ela estava apavorada. — E se clonarem o meu celular também? E se tentarem um sequestro-relâmpago? — Perguntava enquanto examinava ao redor.
— Lyz! — Fred a segurou firme, deixando-a parada de frente para ele. Segurando seu rosto, continuou: — Eu estou aqui, tá legal? Foi só coincidência. Vou checar teu celular quando chegarmos em casa.
— Obrigada, Fred — ela o abraçou tão apertado que parecia precisar se fundir a ele. — Eu... eu... te adoro.
— Eu também, Lyz — ele a beijou na testa. — Você não imagina o quanto te adoro.
De mãos dadas, caminharam até o carro. No caminho, Lyz relaxou um pouco e foi contando como iria transformar aquele susto em uma coluna de alerta para o jornal da faculdade. Enquanto ela criava mentalmente a manchete, a frase de impacto e a introdução, Fred não tirava os olhos da rua. Não sabia o que esperar de Nora. O que ele queria com Lyz depois de tantos anos? Ele precisava protegê-la.
Naquela noite, Fred decidiu dormir na casa dela. Inventou que os pais iriam a um jantar beneficente e que preferia ficar ali. As amigas de Lyz ficaram apavoradas com a história da lanchonete; bloquearam o antigo número de Luísa e prometeram criar um código de segurança para quando desconfiassem de mensagens e ligações. Escolheram o ano das férias em que se conheceram: 2017. Quando houvesse dúvida, qualquer pergunta sobre aquele ano seria o gatilho entre elas.
Fred também não saía do celular. Estavam ambos no quarto de Lyz, mas cada um em um mundo diferente. Ele mantinha contato com Amir e Murilo. Estavam em busca de Nora, investigando prédios alugados para lanchonetes que nunca abriam.
Lyz parou de conversar com as amigas para observá-lo. Ele estava sério, mas lindo como sempre, sentado em sua poltrona de fuxicos. Ela se aproximou de mansinho para surpreendê-lo, mas acabou sendo a surpreendida. Quando estava prestes a pular no seu colo, Fred a agarrou, fazendo com que caísse sentada sobre ele de um jeito nada sexy e muito engraçado. Entre risadas e cócegas, Fred a beijou.
Naqueles momentos, ele esquecia o que realmente estava fazendo ali. Sempre soube do risco de se apaixonar por ela. Tinham gostos, ideias e ideais parecidos. Ele só não queria estar mentindo por todo esse tempo. Enquanto se beijavam e se acariciavam mutuamente, sabia que essa paixão ia acontecer de uma forma ou de outra. Eles se conheceriam em algum lugar da cidade e, quem sabe, se tornariam amigos e depois namorados. Mas agora havia uma mentira — ou melhor, várias mentiras sendo carregadas entre aqueles beijos e amassos.
Tentava esquecer o passado para focar só no aqui e agora. A paixão deles era urgente; os corpos se clamavam, ardendo de vontade de se terem. A conversa sobre a bissexualidade fora mais uma de suas mentiras, entretanto, precisava sustentar aquele personagem até que a segurança de Lyz fosse restabelecida.
Só que o desejo entre eles não podia esperar. Sem pensar duas vezes, Fred se deixou levar. Aceitou as investidas de Lyz, o convite para ir para a cama, as roupas sumindo pelo chão e os corpos se entrelaçando na busca pelo êxtase. Parecia o certo a se fazer. Os corpos se encaixavam, as mãos sabiam exatamente onde e como tocar. Os lábios percorriam caminhos há muito desejados. E o ápice não demorou a ser encontrado por ambos naquela conexão carnal. Se as mentiras iriam acabar com tudo depois? Fred não queria pensar nisso. Só se concentrava na linda mulher que estava com ele, trazendo-o de volta para a vida e mostrando que o corpo e o coração ainda podiam amar a mesma pessoa.
Lyz estava mais do que realizada. Sentia que poderia explodir de tanto desejo. Desde a primeira vez que o vira, sabia que o queria para sempre. Mesmo parecendo clichê, queria tê-lo dentro de si, saboreando-a e levando-a a conhecer caminhos inéditos do próprio prazer. Aquele quarto, que por tantas vezes foi esconderijo de amigos, palco de conversas filosóficas, risadas e trabalhos em grupo, agora se transformava no refúgio daqueles amantes. Sentia que poderia ir muito além com Fred. Sabia que o queria desde o dia em que o viu caído no chão, mas vê-lo ali, entregue a ela com tanto tesão, era mais do que havia imaginado.
— Isso foi incrível, Lyz — Fred desabou na cama, tentando recuperar o fôlego.
— Eu nem sabia que podia sentir tantas coisas ao mesmo tempo, Fred — ela se recuperava dos múltiplos orgasmos vividos naqueles minutos que pareceram horas.
— Depois de tudo isso, você não vai me dizer que somos só amigos, né? — Lyz falou, mirando o teto do quarto.
— Eu não vou dizer mais nada, Lyz — Fred a agarrou, trazendo-a para cima dele. — Quer ser minha namorada?
Novas mensagens:

Amir: “Fred, encontramos ele!”
Murilo: “Vamos invadir a mansão agora!”
Amir: “Cuida da Lyz, não deixa ela sair de casa.”
Murilo: “Não desgruda dela.”
Fred nem precisou responder; não ia desgrudar dela nem que o mandassem.
Lisi Olsen

Lisi Olsen é uma pedagoga, profissional de letras, contadora de histórias, escritora, pesquisadora, ilustradora, bailarina, nerd e apaixonada por leituras, que usa da palavra e  do desenho para expressar os seus devaneios


Instagram: @lisianeolsen


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