ESSE ESTRANHO NOVO MUNDO

ESSE ESTRANHO NOVO MUNDO

DO

HOMEM QUE TRANSFORMOU O

O MUNDO PELA EDUCAÇÃO

No 53a Festival de Cinema de Gramado de 2025 um documentário longa metragem em competição ganhou o Kikito de Melhor Filme Documentário, concorrendo pelo Rio Grande do Norte. Tratava-se de “Lendo o Mundo” de Catherine Murphy e Iris de Oliveira, com duração de 70’34’’, com Produção da Maestra Productions e o Instituto Paulo Freire e cuja sinopse dizia o seguinte: “No início dos anos 1960, Paulo Freire liderou um projeto experimental no nordeste do Brasil, permitindo que centenas de adultos lessem, escrevessem e votassem. A agitação política levou ao exílio de Freire, durante o qual tornou-se um ícone global, promovendo a democracia por meio da educação”. De acordo com Catherine Murphy: “O Método de Freire é mundialmente conhecido pela alfabetização de adultos, mas ele é na verdade muito mais do que isso. É sobre alfabetização, mas também sobre direito a voto, direitos civis, direitos humanos, tudo o que ele definia como processo de conscientização. Nossa ideia foi olhar para o nascimento desse projeto, que marcou o trabalho de Freire por toda a sua vida”.

É interessante observar que uma das diretoras é a californiana Catherine Murphy, que é uma documentarista independente com foco nas artes, educação e movimentos sociais e portanto, mesmo sendo uma norte-americana, conhecia e admirava a obra de Paulo Freire, mais do que a grande maioria dos brasileiros. Já a sua parceira de direção foi a baiana Iris de Oliveira, pesquisadora do gênero  documentário, do cinema experimental, da arte contemporânea, da mídia-ativismo e do cinema negro.

Estive presente nessa sessão e fiquei refletindo, sobre o quanto será difícil que esse belo e relevante filme seja visto nos cinemas brasileiros, pois vivemos no circuito exibidor nacional, uma lógica de mercado gerenciada pelas grandes empresas norte-americanas, o que também serve para as principais plataformas de streaming, que inviabiliza a maior parte da nossa produção audiovisual em nossas telas, notadamente nas salas de cinema, sobretudo um documentário. OBS. – Até esse momento o filme segue percorrendo o circuito de festivais nacional e internacional e portanto não se encontra ao dispor, para ser visto em nenhuma plataforma de streaming. Mas o trailer pode ser visto na Vímeo.

Mas por que o nome desse educador recifense pernambucano, ainda hoje aparece com frequência nos debates sobre educação, política e ideologia?

A resposta a essa questão é o motivo dessa coluna.

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife em 19 de setembro do ano de 1921. Era filho de uma família de classe média, que foi abalada pela crise econômica de 1929. Foi essa vivência, a partir de então, com a fome, a insegurança e a desigualdade social, que forjou a determinação de usar a educação como prática política.

Paulo estudou direito, mas nunca advogou. Prefiriu ensinar, de início ministrando aulas de língua portuguesa e rapidamente passou a ocupar cargos no SESI e em universidades de Pernambuco. Ele chegou a compreensão de que ensinar não era apenas repassar conteúdos. Era escutar, observar e refletir sobre  o contexto social, junto com os alunos. Ele não pensava os alunos como massa de manobra e considerava que toda a pessoa trazia uma bagagem de vida, mesmo sem um diploma. Foi essa percebção que fundamentou a sua proposta de alfabetização.

Nos anos 40 o Brasil ainda apresentava elevados índices de analfabetismo entre adultos, em particular nas regiões Norte e Nordeste. O maior problema é que os programas de alfabetização oficiais trabalhavam com uma cartilha genérica de palavras soltas e frases, que não se sintonizavam com o cotidiano de gente simples, trabalhadores rurais, de periferias urbanas e domésticas. Foi nesse contexto que Freire começou a atuar, a partir do entendimento que métodos usados para o ensino de crianças da classe média urbana, não funcionariam para aquele perfil sócio-cultural tão distinto.

Não se tratava apenas de ensinar a ler, mas de conversar e entender o que essas pessoas já sabiam. A partir de então veio a ideia de trocar o “B+A=BA” por palavras-geradoras como terra, enxada, trabalho, fome, sede. Palavras usuais e carregadas de significados, que possibilitavam aos alunos reconhecer sons e letras, mas também refletir sobre a sua própria condição social.

Paulo Freire dizia que a educação nunca é neutra. Ou ela forma indíviduos capazes de intervirem na realidade, ou reforça a lógica da obediência. A pedagogia tradicional baseada na repetição e na autoridade, cumpre o papel de manter o estudante numa função passiva. O professor fala, o aluno escuta. O conteúdo é imposto, nunca discutido. O resultado disso é a reprodução das hierarquias de fora da escola – entre classes, raças, gêneros e territórios. Freire propôs o contrário, uma pedagogia em que o aluno é o protagonista, porque reconhece os seus saberes, suas vivências e questionamentos. O diálogo é o método. Não é apenas ensinar a ler e escrever, mas formar um consciência crítica. Nesse modelo de ensino, a escola deixa de ser um espaço de adestramento, para se tornar um espaço de disputa simbólica e política.

Afirmar que o metódo revolucinário de ensino de Paulo Freire fracassou porque a educação brasileira vai mal, é repetir uma distorção. Isso porque o método de Freire nunca foi aplicado em escala nacional. O que existe são experiências pontuais bem sucedidas vinculadas a políticas locais ou a movimentos sociais. Isso também tem uma explicação, pois o método de Freire não foi concebido para escolas formais ou ensino infantil. Nasceu como um proposta de alfabetização de adultos excluídos e estruturada em três pilares:

- O ALUNO NÃO É UM RECEPIENTE VAZIO;

- O PONTO DE PARTIDA É O COTIDIANO;

- A ALFABETIZAÇÃO PRECISA GERAR CONSCIÊNCIA.

Retornando ao documentário premiado “Lendo o Mundo”, que retrata a experiência mais conhecida do método revolucionário de Paulo Freire, quando em 1963, na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte, o educador encarou o desafio de alfabetizar 300 trabalhadores em apenas 40 horas/aula. O êxito pareceu um milagre, mas foi fruto de muita organização, pois o projeto tinha o apoio do governo federal, articulação de universidades e engajamento da população local.

O filme resgata os depoimentos de muitos deles, pessoas simples com vidas modestas que foram transformadas ao aprenderem a ler, porque imediatamente tiveram direito ao voto.

A eficácia do método freiriano incomodou os setores conservadores da sociedade, pois depois de se alfabetizarem os trabalhadores começaram a reinvindicar os seus direitos e o alarme soou nas elites locais. E o incipiente Plano Nacional de Alfabetização, apoiado pelo presidente João Goulart e que previa a criação de milhares de círculos de cultura baseados nas ideia de Freire, foi desmantelado pelo golpe militar de 1964 e morreu antes mesmo de nascer. Mas seria adotado e adaptado em outros países da América Latina, da África e até da Escandinávia, com ótimos resultados reconhecidos por organizações, a exemplo da UNESCO.

Paulo Freire foi detido, acusado de subversão e ficou preso por 70 dias e foi exilado na Bolívia e logo em seguida no Chile. Nos anos seguintes passou por Genebra, esteve nos bastidores das Nações Unidas e lecionou na Universidade de Harvard nos EUA.

Enquanto era silenciado em seu país, suas ideias ganhavam o mundo. O exílio fez com que Paulo Freire refletisse sobre o uso de sua revolucionária pedagogia em diálogo com outra culturas. Nesse papel, ele viajou por dezenas de países, participando diretamente da formulação de políticas educacionais em contextos de descolonização em países da África, da América Latina e da Ásia.

Em 1968 lançou a sua obra “A Pedagogia do Oprimido”, que até agora já foi publicada em 40 idiomas e até hoje segue entre as mais citadas na área das Ciências Sociais, bem como tornou-se leitura obrigatória em programas de formação docente e curso de sociologia nos EUA, Canadá, Reino Unido e países africanos de língua portuguesa.

Essa atuação relevante pelo mundo lhe rendeu 35 títulos de Doutor Honoris Causa, além de prêmios da UNESCO, estátuas em escolas e institutos, bem como cátedras universitárias em seu nome em diversos países, incluindo os EUA.

Com a anistia “mal negociada”, em 1980 Paulo Freire pode retornar ao Brasil. Já reconhecido internacionalmente, pode se reaproximar da realidade brasileira. Lecionou em universidades, participou da formação de professores e educadores populares e militantes. Também ajudou a estruturar os programas de alfabetização do Partido dos Trabalhadores, ao qual se filiou.

Em 1989, assumiu a Secretaria de Educação de São Paulo à convite da recém eleita prefeita, Luiza Erundina e pela primeira vez teve contato com a máquina pública, com a burocracia e as disputas políticas internas, sem abandonar os seus príncipios.

Como gestor público implementou ações para a valorização da carreira docente por meio de concursos públicos, ampliação de vagas na formação continuada e maior autonomia pedagógica nas escolas. Também priorizou a Educação de Jovens e Adultos (EJA) e criou o MOVA – Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos, como uma propostas descentralizada e baseada no diálogo com as comunidades locais, num modelo que até hoje inspira projetos em outras capitais e municípios pelo país.

Mas também enfrentou críticas constantes dos setores conservadores, inclusive dentro da imprensa, por sua associação com o PT. Mesmo assim, sua passagem pela gestão pública deixou um legado de políticas educacionais que dialogam com a realidade de alunos e professores, sem recorrer à fórmulas importadas ou imposições verticais.

Paulo Freire deixou esse mundo em 02 de maio de 1997, aos 75 anos, deixando uma obra extensa, composta de livros, artigos, cartas e entrevistas, além de uma base sólida quem pensa a educação como prática social e política.

Em 2012, por iniciativa da deputada federal Luiza Erundina, o Congresso aprovou a lei que o declarou PATRONO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA.


João Luís Martinez


João Luís Martínez é ator, dramaturgo, escritor e roteirista. Cursou a Faculdade de Jornalismo da UFRGS. Atua há 40 anos nas áreas do Teatro e do Audiovisual (cinema, TV e web). Como roteirista já escreveu roteiros de curtas, longas, minisséries e séries, ficcionais e documentais para Produtoras do RS e de SP. Integrou durante dez anos o corpo docente do Studio Clio – Instituto de Artes e Humanismo onde foi responsável pelos cursos de roteiro. É amante da literatura, dos quadrinhos, da música e de todas as formas de expressão artística.



"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

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