
História de família
— Então, na lógica da sua vó, eu teria nascido lá em Flores. Tipo, se os indígenas não tivessem deixado minha avó e as outras crianças para trás. Será então que eu agora estaria morando numa aldeia?
A história familiar da Larissa daria facilmente um Cem Anos de Solidão. Travessuras de criança numa vila militar em Belém; uma onça roubada do quartel e escondida no quarto dos fundos; visitas que vinham passar uns dias e acabavam ficando meses — às vezes famílias inteiras, incluindo macaquinhos de estimação —; as parentes cleptomaníacas; a morte nebulosa do pai.
Na geração anterior, uma infância ribeirinha no Amazonas; a floresta em volta; as seringueiras; os dias à espera da mãe, que voltaria ou não à tarde, com a espingarda sobre o ombro e latas cheias de látex; os comerciantes que vinham pelo rio para trocar a borracha por roupa, sapatos, alimentos, deixando as famílias sempre endividadas; o peixe pescado na hora; o rio que tudo dava e às vezes cobrava caro demais; as muriçocas, as doenças, os remédios da floresta; as crises da mãe, as brigas com o pai, a separação; a ida pra cidade aos onze anos com um casal desconhecido; a solidão em Manaus; o estudo, o trabalho em casa de família; mais tarde a paixão, o nascimento dos filhos; a vida em Belém, a convivência conturbada com a mãe, agora feita avó.
E essa avó então, que chegou na Amazônia ainda pequena, nos anos trinta do século passado, sob o lema “integrar para não entregar”? Cuja família vinha fugindo da seca no Ceará e atendendo o chamado da borracha. Ou, quem sabe, foram arrancados da roça pelos militares e mandados pro Norte, como aconteceu com outros. Não se sabe muito sobre o porquê e o como dessa migração, pois quem sobreviveu para contar na época era muito criança pra lembrar. O que se sabe é que, uma vez chegados no Amazonas, construíram uma casa à beira-rio, onde a família — mãe, tios, primos — morava. E que, passados alguns anos, a casa foi assaltada por um grupo de indígenas, que mataram — em vingança por outras mortes — os dois tios, e levaram embora a mãe e as duas primas mais velhas daquela menina que um dia viria a ser a avó da Larissa. Ela e os primos mais novos foram deixados pra trás. Sendo a mais velha dos que ficaram, ela assumiu o comando, enfiou as crianças dentro de uma canoa e remou por quilômetros rio-abaixo, até chegar na casa mais próxima. Ela tinha oito anos. Tem gente que enlouqueceu por muito menos.
Mas a história não termina aí. Pois não é que há poucos anos uma prima da mãe da Larissa conheceu por coincidência o cacique da aldeia Flores Mayuruna? E não é que, conversando sobre isso e aquilo, ele mencionou que é filho de uma mulher branca? E não é que bateram as coordenadas temporais e geográficas, as narrativas e lembranças? Não é que tudo indica que a mãe dele é também a mãe da avó da Larissa, a mesma que foi sequestrada naquele dia?
Então, sim, na lógica da minha vó, a Larissa por pouco não nasceu numa aldeia no meio da floresta amazônica, na região fronteiriça com o Peru. E talvez seja por isso, por ter faltado pouco; talvez venham daí os traços indígenas que eu vejo desde sempre nas suas feições.
— Não sei se tenho antepassados indígenas — levanta os ombros, sem resposta. — A vovó sempre dizia que era descendente de portugueses.
— É, mas ela também perseguia você pela casa com um facão e dizia que já tinha morado no Japão e era fluente em alemão. Só dizendo que talvez não seja uma fonte tão confiável...
A verdade é que ninguém sabe nem se ela veio mesmo do Ceará. Sempre repetia isso, mas a própria filha — mãe da Larissa — duvidava. Como ela se lembraria disso, pequena como era quando foi embora dali ou de onde fosse? Mas então, pelas voltas que a vida dá, aos quinze anos, a Larissa foi morar pros lados de lá. Às vezes, o destino tem dessas brincadeiras, gosta de fechar os ciclos, deixar as histórias de família bem amarradas. Na noite antes da sua partida para Fortaleza, a avó lhe enfiou uma nota de cinquenta reais na mão: “Eu quero que leve isso na Basílica de Canindé. São Francisco sabe o porquê.” E Larissa ainda lembra que após sua chegada em terras cearenses, logo nos primeiros telefonemas para casa, ela comentava com certo espanto: “Mãe, as pessoas aqui falam que nem a vovó!”, “Mãe, aqui tem aquelas comidas que a vovó sempre fala!”, “Mãe, existe mesmo uma serra chamada Baturité aqui!”
Então, quem sabe? Quem sabe foi ou não foi? Quem sabe teria sido isso ou aquilo?
— Eu acho que você seria a cacica — respondo à pergunta inicial. E acrescento: — E agora nós duas moraríamos lá.
Porque, na minha lógica, sendo no Ceará, no Amazonas ou no lugar que fosse, a gente iria se encontrar de qualquer jeito.
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| Yvonne Miller Foto: Thaís Vieira |
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| Arte:Waldemar Max |

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