NAVALHAS AO VENTO

AQUI TEM ESPECIALISTAS – DA CONSULTA AO TRATAMENTO, VIVA O SUS !


Como todo ser humano, eu sou uma pessoa que gosta de reclamar... mas gosto mais ainda de elogiar. Há muito tempo eu só uso convênio de saúde, por isso, como paciente, eu pouco ou nada sabia sobre o SUS. Meu conhecimento era como servidora da área da saúde. Ao contrário do que muitos pensam, o SUS não é apenas o posto de saúde; é muito mais do que isso. O SUS é o medicamento da Farmácia Popular onde os remédios são gratuitos, é o SAMU que socorre qualquer pessoa, é a Vigilância em Saúde que cuida da higiene das lancherias e restaurantes para que não nos sirvam alimentos estragados nem contaminados. Também está nas vacinas que já erradicaram muitas doenças e na Vigilância Ambiental que monitora o acúmulo de água, prevenindo a Zika, a Dengue e a Chikungunya. Essas são apenas algumas das ações do SUS; não vou me apegar a isso, senão não conto o motivo deste texto.

Mas, ultimamente, devido à defasagem do nosso salário e ao aumento considerável do valor do nosso plano de saúde, muitos funcionários públicos de Gravataí estão deixando o convênio e aderindo ao SUS, o que, na minha humilde opinião, aumenta ainda mais a demanda nos postos e UPAs da cidade — afinal, somos humanos e também adoecemos. Foi por isso que, em fevereiro deste ano, eu “debutei” no SUS. Fui à UBS de referência do meu endereço e marquei consulta com o clínico geral. Em dez dias, eu estava com a indicação de cirurgia oftalmológica em mãos (catarata). Muitas pessoas diziam que eu esperaria um ou dois anos, pois a demora é muito grande. Eu já estava praticamente cega do olho direito e me preocupei com o tempo que levaria, mas, como não havia escolha, esperei. No final de maio recebi uma ligação: a consulta com o oftalmologista estava marcada para o início de junho na “Carreta Aqui Tem Especialistas”.

Para quem desconhece, a “carreta do Lula”, como passou a ser chamada, é um programa do Governo Federal que roda o Brasil com dezenas de carretas focadas em desafogar as filas do SUS. Elas oferecem exames de imagem e consultas com médicos especialistas diretamente nas regiões que mais precisam. O atendimento não é por livre demanda; é necessário estar na fila de regulação da Secretaria Municipal de Saúde da sua cidade. Em Gravataí, veio a carreta da “Saúde da Mulher”, com foco em mamografias, ultrassonografias e exames para prevenção de câncer de mama e colo do útero. A minha necessidade seria atendida na cidade de Viamão e, no dia da consulta, lá estava eu, com quase duas horas de antecedência.

Minha consulta estava marcada para as 14h, mas, como cheguei cedo, às 13h30 eu já estava chamando o Uber para voltar para casa. Agora era aguardar o chamado para a cirurgia. Dia 27 de junho recebi o WhatsApp e, dia 29, às 5h da manhã, peguei o Uber com a amiga Tânya Lisbôa, pois era necessário levar acompanhante. A madrugada foi uma das mais frias até agora. Estava marcado para chegarmos às 6h, e chegamos com pontualidade britânica. Às 7h começaram a distribuir as fichas, eu era a número 2 e, às 9h, já estava operada e voltando para casa.

O atendimento, desde a consulta anterior, me cativou. Cada um dos funcionários, enfermeiros e médicos envolvidos estavam ali com meticulosa dedicação. A Isab-El, sendo Isab-El, saiu da “aldeia” para arrumar treta com uma paciente chata que estava brigando com a técnica de enfermagem. Tinha gente reclamando que o atendimento estava demorando, outra reclamava que o rapaz estava no computador, outra reclamava que tinha que ter cadeiras mais confortáveis... e por aí vai... Eita povo que gosta de reclamar! E minha paciência com esse tipo de gente é muito rasa, afinal eu já estive “deste lado do balcão” e sei como é ruim fazer o melhor e as pessoas procurarem algo para criticar, sem nunca reconhecer o esforço do funcionário. Durante a cirurgia eu estava com muito medo, afinal era com anestesia local e eu veria tudo. Uma das enfermeiras acariciava minha mão e outra segurava, com suavidade, minhas pernas que tremiam muito; durante todo o tempo elas conversavam comigo, me acalmando. No outro dia foi a revisão, e eu soube que este atendimento carinhoso foi com todos os pacientes da manhã anterior. E teve gente reclamando... aff... No dia seguinte, novamente outra manhã muito fria, a Tânya me acompanhou na revisão. Novamente às 5h pegamos o Uber e, às 8h20, já estávamos chamando o carro para voltar para casa.

Minha primeira experiência como paciente do SUS foi muito tranquila e muito produtiva; me senti acolhida e respeitada. A demanda é grande? Sim. Os postos de saúde e UPAs estão sempre lotados? Sim. Mas não adianta reclamar. O SUS é a melhor coisa que podíamos ter. Tem que melhorar? Sim. Mas reclamar não é a solução. É necessário capacitar e aparelhar melhor o que já temos. Na carreta, eu ouvi o oftalmologista falar que aquela aparelhagem era melhor, mais precisa, do que a que ele trabalha em outro local (uma clínica particular). Privatizar a saúde não é a solução; a solução é dar valor e cuidar do que temos. É uma vergonha ver as pessoas depredando, riscando as paredes, roubando papel higiênico, arrancando pias e vasos (como já testemunhei várias vezes enquanto servidora pública). Tem gente que rouba lâmpada, torneira... Imagina morar num país sem saúde pública gratuita. De acordo com o site SIMERShttps://www.simers.org.br/noticia/conheca-o-sus-de-outros-cinco-paises): “São poucos os países que possuem um sistema de saúde público universal. Reino Unido, Canadá, Austrália, França e Suécia integram, junto com o Brasil, este pequeno grupo. No entanto, o orçamento brasileiro dedicado ao setor é um dos piores da lista.” Se com parcos recursos já temos quem nos socorra, imagina se tivéssemos mais investimentos e menos reclamações?

Muitos que defendem a privatização não imaginam o custo real da saúde particular. O modelo americano, por exemplo, é frequentemente criticado por ser dispendioso e problemático, mesmo com recursos avançados, pois carece de cobertura universal, conforme aponta o blog Assistente de Viagem(https://blog.assistentedeviagem.com.br/paises-sem-atendimento-medico-publico/): 

“... mesmo tendo bons profissionais e recursos tecnológicos, muitos especialistas consideram o sistema de saúde norte-americano problemático. Isso porque há o fato de que uma opção gratuita não está disponível no país. Logo, os cidadãos dos Estados Unidos devem recorrer a um plano de saúde privado caso precisem de qualquer atendimento médico. Outro problema que existe no país é que não basta possuir dinheiro para pagar o plano. Em muitos casos os seguros são negados com base em uma lista de restrições. Estas em última instância podem até mesmo limitar os atendimentos das pessoas que já são seguradas. Não por acaso a assistência médica do país carrega certa má fama.”

Então, vamos parar de reclamar só porque os outros reclamam. Temos um sistema que protege a todos. Vamos cuidar do que é nosso. Se houver menos depredação, sobrará mais recursos para investimentos.

Parabéns ao governo federal que disponibilizou essas carretas para zerar as filas de espera, parabéns pela visão de coletivo, parabéns aos servidores que acordam de madrugada e enfrentam o frio das madrugadas nas tendas da mesma forma que os pacientes, agradeço ao carinho que recebi nos três dias de atendimento.

Também quero gradecer a vários amigos que me ligaram, que não me deixaram sozinha nestes quinze dias de repouso, que mandaram um watts, um sinal de fumaça... São muitos, então para não correr o risco de esquecer alguém eu não citarei nome a nome. Mas tem três pessoas que merecem uma citação especial: a Tânya Lisbôa pela companhia nas madrugadas frias e por vir várias vezes aqui me ver e ajudar, a Maria Inês Guilloux por vir tomar chimarrão comigo e trazer remédios, a Beatriz Prestes pelo delicioso cesto de frutas. Ficar sozinha em casa, sem poder sair, sem ter com quem falar... só quem passa por isso sabe o significado de um telefonema de um amigo. Sei que é uma cirurgia comum e simples, mas antes de falar que estou sendo exagerada, pensa em como seria a tua recuperação se estivesse sozinha e só depois me julga. Sim, até mesmo eu, uma ogra, gosto de demonstrações de carinho.

E, mais uma vez... VIVA O SUS!

Agora, partiu olho esquerdo... tudo de novo...


Isab-El Cristina

Isab-El Cristina Soares é poeta, membro do Clube Literário de Gravataí, autora de 6 livros.  Graduada em Letras/ Literaturas, pós-graduada em Libras, é Diretora Cultural do ColetiveArts.

Escute o episódio do podcast Coletive Som gravado com Isab-El , clicando Aqui.



"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."


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