ELKE DIZ: BRASILEIRO NÃO SABE AMAR O BRASIL
Ainda estou meio tonta com a verdade que li numa postagem do Instagram. Eu estava olhando as publicações sem muito interesse e me deparei com uma bomba. Quem me conhece sabe que não domino essa rede social e a acho sem graça, por isso não sei como encontrei aquele vídeo estarrecedor. Era uma publicação antiga, repostada por alguém que não conheço e curtida por alguns dos meus amigos. Na postagem, Elke Georgievna Grünupp — filha de pai russo e mãe alemã (alguns registros apontam que ela nasceu na Alemanha, outros na Rússia) e naturalizada brasileira aos 20 anos — dizia com todas as letras o que eu sempre pensei, mas nunca ousei colocar em palavras: “o brasileiro não aprendeu a amar o próprio país”.
Sim, a saudosa Elke Maravilha, falecida em 16 de agosto de 2016, aos 71 anos, abre o verbo e denuncia que o brasileiro tem a “síndrome de cachorro vira-lata”. Ela afirma que o grande problema do nosso povo é não aprender a amar a própria pátria, preferindo valorizar o exterior, como no hábito de fazer compras em Miami. Elke mostra que o Brasil é um grande país onde diferentes culturas convivem em perfeita harmonia. No entanto, o brasileiro, em vez de valorizar nossa cultura e a miscigenação de raças e religiões, menospreza essa riqueza. Por preconceito e complexo de vira-lata, prefere valorizar outros países. Ela inclusive chama o brasileiro de “gente burra” e dá boas risadas.
Isso me levou a pensar na minha infância. Acredito que sou uma das poucas pessoas que passou pelo ensino fundamental, médio, superior e pós-graduação se recusando — e fundamentando essa recusa — a estudar outro idioma que não seja da minha pátria. De inglês eu só sei o to be (e olhe lá); acho dispensável e desnecessário estudá-lo. Acho muito mais interessante estudar Latim (quem conhece a raiz das palavras não acha a Língua Portuguesa difícil) e Libras. Afinal, é muito mais provável ter um filho, neto, afilhado, vizinho ou cliente surdo do que norte-americano. E o mais idiota é a desculpa: “ah, Português é muito difícil...”.
Também nunca tive interesse em conhecer outros países e culturas. Aliás, tenho curiosidade em conhecer Cuba, mas, antes de sair do Brasil, gostaria de conhecer todo o meu país, do Oiapoque ao Chuí: comer acarajé, vatapá, baião de dois, assistir ao Festival Folclórico de Parintins... Tem quem se orgulhe de já ter rodado o mundo sem conhecer as Cataratas do Iguaçu (eu digo que, se quiser conhecer o rosto de Deus, tem que visitar as cataratas). Acho ridículo quando brasileiros desdenham dos produtos nacionais em detrimento dos importados, escolhendo as mercadorias pela nacionalidade e não pela qualidade.
Lembro-me de um fato muito interessante da minha juventude. O ano era 1974, eu tinha 12 anos e estava terminando a 8ª série na Escola Estadual Daltro Filho, em Porto Alegre. Minhas amigas ouviam músicas “americanas”, como elas denominavam, por achar “chique”. No meu toca-fitas, eu ouvia Raul Seixas, Mutantes, Rita Lee, Casa das Máquinas, Secos & Molhados, Elis e Tom Jobim, e as “coleguinhas” riam do meu mau gosto. Nas fitas K7 de todas as minhas colegas havia a música Feelings, cantada por Morris Albert, um rapaz jovem, bonito e talentoso que fazia todas suspirarem por ser “americano”. Arrumei muita inimizade quando disse, às gargalhadas, que elas estavam “babando por um falso americano”. Meu tio Neri, tão curioso quanto eu, descobriu que Morris Albert era paulista, nascido em 7 de setembro de 1951, e que seu nome de batismo era Maurício Alberto Kaisermann. Acredito que muitas delas me odeiam até hoje e duvidam da minha informação.
Nesta Copa, então, a síndrome de vira-lata foi esmagadora. Brasileiro que torce por uma seleção que é rival histórica da seleção brasileira deveria ser obrigado a sair do país. Nas redes sociais, desde os primeiros jogos, tinha gente que chamava a seleção deles de “minha Argentina”, ignorando muitos casos de manifestações racistas e o fato de que, desde 1978, eles usam de meios ilegais para vencer. Em 1978, houve o famoso “jogo arranjado” contra o Peru; em 1986, o gol de mão de Maradona que ficou conhecido como La Mano de Dios; em 1990, a controversa “água batizada” que dopou o lateral Branco, entre outros jogadores; e, em 1994, o exame positivo de doping do próprio Maradona... Isso sem falar nos inúmeros escândalos e polêmicas de disciplina e arbitragem da seleção argentina ao longo das edições do torneio. Os "vira-latas" aceitam que alguns argentinos imitem macacos num ato racista, aceitam que se refiram ao nosso povo em tom de deboche afirmando que jamais torceriam pela nossa equipe, e que riam dos brasileiros que torcem por eles. A desculpa? Dizem que no Brasil também tem racismo. Em vez de defender o seu irmão, o vira-lata defende qualquer um, menos os seus pares.
Na política não é diferente. O deputado federal Eduardo Bolsonaro “lambe as botas” de Donald Trump e sugere que os Estados Unidos apliquem tarifas sobre produtos brasileiros, prejudicando o próprio país. Prefere entregar a nação aos norte-americanos a aceitar o resultado das eleições. Vemos o “gado” se apropriando da camiseta da seleção e da bandeira do Brasil, batendo no peito e arrotando “Deus, pátria, família”, enquanto bate continência para a bandeira dos Estados Unidos e compra produtos da China. Desfazem do Oscar do filme Ainda Estou Aqui e do sucesso d'O Agente Secreto, renegam a existência da ditadura militar (1964 a 1985) e gritam que é preciso acabar com “o comunismo em que o país está vivendo”. Além de essa gente viver em “Nárnia”, seus pensamentos não têm coerência nenhuma, bem como seu amor pelo país.
Cada um se denomina pela origem de seus antepassados. O país é habitado por descendentes de italianos, franceses, portugueses, espanhóis... mas não vejo ninguém dizer apenas: "sou brasileiro, tenho um pé num país europeu e outro na África".
É, Elke tinha razão: o brasileiro não aprendeu a amar o seu país e segue com sua síndrome de vira-lata, com as calças cagadas achando que é elite.
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| Isab-El Cristina |
Isab-El Cristina Soares é poeta, membro do Clube Literário de Gravataí, autora de 6 livros. Graduada em Letras/ Literaturas, pós-graduada em Libras, é Diretora Cultural do ColetiveArts.
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"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."
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| Arte:Waldemar Max |
08 ANOS DE VIDA,
SENDO A MAÇÃ DE ALGUNS,
EU SOU A MOSCA QUE POUSOU
EM SUA SOPA, EU SOU A MOSCA
NO SEU PRATO A
ZUMBIZAR!
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2 Comentários
Sempre tive aversão ao estudo do inglês também. Sempre ensinei meus alunos a valorizar nosso país e nossa cultura. Parabéns pelo texto! 👏🏼👏🏼😘
ResponderExcluirQue beleza de texto. Ri muito e gostei de rever a Elke Maravilha. Beijo.
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