
Quando
pensar se torna algo execrável...

Pessoas
bebendo detergente, terraplanistas, políticos de estimação, Síndrome Sérgio
Moro - SSM (Já falamos sobre em outras edições desta coluna. Entre os
principais sintomas está a compulsão por julgar e condenar sem provas ou
conhecimento aprofundado sobre), hipocrisia, trabalhadores que fazem escolhas
que vão contra os trabalhadores, escritores que não leem... Além de vivermos em
uma sociedade tóxica, que adoece, temos aí o resultado de um projeto de
alienação e manipulação que vem sendo posto em prática por gerações. A
ignorância sendo enaltecida. Isso traz o pior resultado possível e transforma a
realidade em algo bizarro e anacrônico, como podemos observar em nossos tempos
de tristeza.
Hoje
gostaria de refletir sobre um ponto específico retirado deste show de horrores.
O assunto em destaque, dessa vez, será os pelotões de cancelamento e bloqueio
que circulam pela internet, sempre dispostos a entrar em ação, mesmo sem o
mínimo aprofundamento sobre o combate que começarão a travar de forma cega.
Seria uma variação da SSM? Temos aí a questão do julgamento sem provas, entre
outros pontos em comum. Mas vamos ajeitar o rumo para o barco a deriva não
fugir da rota que tinha imaginado inicialmente e que, pelo menos dessa vez,
buscarei manter.
Vamos
recomeçar, apontando a proa para a ideia em questão.
Você
já reparou bem no que está em cima do seu pescoço? Se chama cabeça. Ela é
preenchida por diversos equipamentos que possibilitam um viver pleno, reflexivo
e mais interessante. Grande parte dela é recheada de algo chamado cérebro,
responsável pelo bom funcionamento do todo. Como podemos ver, a tal da cabeça
não serve apenas para separar as orelhas ou usar chapéu. Mas voltando a este recheio específico, o cérebro,
precisamos exercita-lo para ter o hábito de pensar por nós mesmos e não sermos
presas fáceis para os títeres picaretas que nos sugam através da manipulação e
deformação dos fatos.
Mas
como exercitar essa parte fundamental do nosso corpo, em uma sociedade que se
especializa cada vez mais em manter o cidadão comum na alienação, comodismo e
ignorância para continuar no controle da maioria distraída e anestesiada.
Bombardeios constantes de entretenimento de baixa qualidade e nenhum incentivo
a arte, a cultura e a informação. Falo
de arte, de algo que realmente transforme, sensibilize e fortaleça o senso
crítico e o potencial criativo e reflexivo. Arte como força transformadora, que
tire o indivíduo da limitadora zona de conforto. Nada de objetos decorativos e
afins. Falo de informação como algo que agregue ao conhecimento e ao acervo
cultural de cada um, engrandecendo assim o coletivo. Faz parte do esquema
acreditarmos estar recebendo estes, mas na verdade estamos só enxaguando nossa
mente na grande máquina de lavagem cerebral.
Entre
as consequências nefastas deste processo que nos é imposto com ares de
naturalidade, temos os esquadrões que acreditam ser muito conscientes,
achando-se parte de uma militância, resistência ou a qualquer outra forma combativa de vida. Pura enganação. Mais um truque do sistema para manter a
distração e roubar a atenção e tempo dos que deveriam estar se unindo contra o
verdadeiro inimigo, que visa a manutenção de tudo exatamente como está. Todos
produzindo, consumindo, dóceis, obedientes, de cabeça baixa, competindo,
olhando sempre para o próprio umbigo... Olhar para o outro, só para julgar,
criticar, condenar... Enfim... Bem ajustados a uma sociedade desigual, injusta
e que se deteriora por ser completamente inviável. Uma organização
completamente distante da nossa natureza, deformando nosso caráter, nossos
desejos, castrando, prendendo, reprimindo...
Voltando
aos esquadrões de super-homens e supermulheres don@s de toda a perfeição e
arrogância necessária para apontar o dedo e promover um verdadeiro linchamento
virtual que, infelizmente, já incentivou o fato no mundo real... Como é tudo
muito instantâneo, muitas acusações mostram-se infundadas com o tempo, mas a
divulgação já foi feita e o alvo dela já está com o filme torrado. Sem falar
que a retratação nunca é tão interessante quanto o momento de ódio que continua
ecoando pelas podres redes sociais.
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Entre
os casos que acompanhei de perto e que poderia citar como exemplo, está o de “C”.
Nos conhecemos na produção subterrânea, mantivemos contato e fizemos algumas
parcerias. Sempre mostrando seu lado mais ativo e a disposição de embarcar em
qualquer projeto que lhe parecesse minimamente interessante. Daí, no decorrer
do tempo, começaram a chegar questionamentos sobre nossas parcerias devido a
uma história que desabonava a conduta de “C”. Busquei informações com pessoas
próximas ao ocorrido e que, com isso, tinham uma visão mais clara dos fatos.
Tanto homens, quanto mulheres, afirmaram que foi um boato maldoso espalhado unicamente
com o intuito de denegrir a imagem de “C”. Uma relação que havia terminado e a
outra parte não aceitou o fim. Tudo já estava esclarecido, inclusive
judicialmente, mas a internet continuava repassando a mensagem antiga e
abastecendo o prato dos famintos por uma crucificação.
Não
tendo encontrado uma divergência se quer no depoimento das pessoas que
realmente sabiam do que estavam falando, procurei o próprio “C” e conversamos a
respeito. Mas a história continua ecoando e vez por outra me chega alguém
perguntando sobre a coisa. Daí explico que pesquisei a fundo, com fontes
confiáveis, e a conclusão era que o tal pecado imperdoável era apenas um boato
fruto do término de uma relação. Coisa muito comum a culpa ser sempre do outro
e criarmos monstros para justificar nossas escolhas e atitudes. Alguns entendem
e outros não. Foda-se. Não devo nada a ninguém. Mas o que ficava nítido quando
eu começava a explanação sobre o fato, era a impaciência de quem desejava
apenas ver o grande espetáculo da raiva, do ódio, da indignação. Esse
raciocínio todo o deixava entediado.
Teve
também o caso de “E”. A Tarde Multicultural Sem Fronteiras teve 5 edições, se
não me engano. Era uma evento que criei e que agrupava apresentações,
palestras, exposições.... Bem o que o nome dizia ser. O nome era a proposta.
“E” foi convidado para expor e fomentar uma troca de ideias. O trabalho dele
era realmente muito bom e tinha um alcance considerável. Com o tempo surgiu o
boato que alguém que tinha ido ao evento tentou falar com ele e não conseguiu,
que a produtora dele não permitia contato... Nada disso aconteceu. “E” nunca
teve uma produtora, foi lá como todos os demais, na camaradagem, sem cobrar um
centavo, e quem quis se aproximar dele chegou junto e trocou uma ideia legal,
pois ficamos até tarde tomando umas geladas com a rapaziada depois do evento.
Mas a história ainda se arrasta, cada vez mais ganhando novos enfeites e
contornos. Tanto “E”, quanto “C”, ainda são boicotados por pessoas mal
informadas que pensam estar fazendo uma grande cruzada em prol da humanidade,
combatendo o maior de todos os inimigos.
Não
sou contra a organização e resistência que realmente combatem os fatos
abomináveis que estamos vendo acontecer, muito pelo contrário, mas não dá para
transformar tudo que chega em verdade absoluta ou em uma causa para se abraçar
e dar algum sentido em nossas vidas vazias. Temos de minimamente nos informar
com fontes confiáveis, pensar a respeito, refletir profundamente sobre e fazer
todo o processo de filtragem para se chegar a uma conclusão. Não dá para ser
porta voz de fofoca, afetando a vida de outras pessoas de forma negativa. Isso
é irresponsabilidade, além de estar apoiando alguém que se utiliza de lutas
justas, autenticas e necessárias para prejudicar o outro, normalmente por
motivos fúteis.
Use
isso que recheia seu crânio, não adote o comportamento de manada. Só peixe
morto vai a favor da correnteza.
Pense
pela própria cabeça. Não deixe que te guiem como um idiota.

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