O PENTEADO DA DISCÓRDIA
Dia desses, publiquei uma foto antiga no Facebook e minha prima, Simona Arreguy, comentou que meu penteado estava novamente na moda. Um filme passou na minha mente. Contarei para vocês com riqueza de detalhes.
Era o ano de 2000. Eu, emocionada, seria a autora homenageada na 15ª Feira do Livro de Gravataí, dividindo o palco com o maravilhoso Moacyr Scliar, patrono da feira. Poucos dias antes da abertura, seria o lançamento do meu terceiro livro, “Sinal de Alerta”, numa confeitaria na saída da galeria Nossa Senhora dos Anjos, pela Rua Anápio Gomes. Eu trabalhava na FUNDARC (Fundação Municipal de Arte e Cultura) e não tínhamos muito tempo para nos arrumar depois do expediente. Era hábito tomar um “banho de gato” num chuveiro improvisado e partir para algum evento. Isso era rotina para quase toda a equipe; apenas quem morava perto tinha o privilégio de ir até em casa, tomar um demorado banho e voltar. Eu morava num bairro bem distante do centro e, na época, não existia transporte por aplicativo — era “busão” e demorava mais de uma hora.
Saí do trabalho às 17h e, às 19h, eu teria que estar linda e plena na confeitaria para receber meus amigos e colegas. Hoje tenho uma cabeleireira de confiança, minha amiga Janaína Freitas, do salão Rose Red (inclusive superindico, ela é maravilhosa), mas, naquela época, eu ainda não tinha um salão fixo; vagava entre um e outro. Muitas de minhas amigas falavam de um jovem, diziam que ele era um ótimo profissional. Como era um dia especial, procurei pelo melhor. Tive que agendar com mais de uma semana de antecedência, tamanha era a procura por esse nome em que toda a cidade apostava como promissor (não vou citar o nome do profissional). Com aquela fama toda, seria impossível errar.
Logo que cheguei, ele, com muita “balaca”, sentou-se à minha frente e, olhando nos meus olhos, perguntou:
— O que tu pensa para o teu cabelo?
Respondi que não gostava de cabelo armado, que meu cabelo tinha que ter balanço e que, na verdade, era só lavar e secar de forma desorganizada, espalhando os fios com as mãos no vento do secador. O corte era um “pantera curto”, então teria que ser algo muito livre e leve. Foi quando o “mestre” sentenciou:
— Já entendi.
Lavou meu cabelo e fomos para a cadeira, onde uma grande quantidade de musse foi colocada na palma da sua mão. Quando perguntei para que tanto produto, ele virou minha cadeira de costas para o espelho e não pude ver mais nada. Ele ficou visivelmente chateado e disse que sabia o que estava fazendo, pois era um cabeleireiro renomado. Eu sentia que a escova tinha dificuldade em deslizar nos fios e aquilo começou a me angustiar — algo “de errado não estava certo”. Ele estava fazendo escova e eu perguntei o porquê daquilo, se eu não queria um cabelo alisado, e sim que ele preservasse as ondas naturais. Nada respondeu e, de repente, tapou meus olhos com as mãos, soltando uma grande quantidade de laquê por toda a minha cabeça.
Levantei de um pulo e me olhei no espelho: ele havia feito o penteado da Cassandra, do programa Sai de Baixo, interpretada pela Aracy Balabanian. Um penteado duro, estático, sem vida, sem balanço... Eu dei um grito:
— O que é isso? Que merda é essa?
Ele me olhou com ar de superioridade e disse calmamente:
— Querida, tu não tens mais idade para usar cabelinho de menina. És uma senhora e tens que aparentar justamente isso. não dá para ser jovem toda a vida. E esse teu cabelo rebelde não passa confiança, nem parece uma Coordenadora de Oficinas da FUNDARC.
Eu tinha apenas trinta e oito anos! Não tinha idade para usar penteado de idosa — na verdade, ainda não tenho, e em breve completarei sessenta e quatro. Gosto de cabelo com atitude, que balance. Cabelo sem movimento me lembra cabelo sujo.
Comecei a gritar no meio do salão. Tínhamos apenas 15 minutos e já estava chegando a hora do lançamento do meu livro. Ainda bem que eu tinha a minha amiga Zulair Maria de Souza, que já estava no local organizando tudo. Pedi para ele lavar novamente para tirar todo aquele produto, e ele disse que não faria isso com sua "obra-prima", que eu estava linda. Todo o salão me olhando, as pessoas apavoradas com “aquilo” na minha cabeça e com tanto palavrão que saía da minha boca... Meu rosto era um vermelhão só.
Abri a torneira do lavatório e meti a cabeça na água. Não tinha xampu que penetrasse aquele monte de produto; o capacete não deixava a água chegar ao couro cabeludo. Devo ter passado o xampu umas cinco ou seis vezes até sentir que os fios estavam ficando mais leves, mas ainda não estavam totalmente limpos. Saí do salão com o cabelo pingando e as lágrimas correndo rua afora. Que ódio daquele idiota!
Cheguei à confeitaria e a Zulair soltou uma grande risada:
— O que tu fizeste no teu cabelo? Essa não és tu!
Comecei a chorar e contei para ela. Meu pai chegou, ficou me olhando e logo sentenciou:
— Tu pareces mais velha.
Enfim, todo mundo odiou aquele cabelo. Imagina se tivessem visto o que o “mestre” havia feito antes! Levei mais de uma semana lavando todo dia para tirar todo o resíduo de produto que estava impregnado nos fios.
Essa foto antiga me lembrou desta história que hoje eu conto rindo, mas que naquele dia foi uma tragédia e me fez chorar muito. No ano seguinte, a Janaína abriu o salão na Anápio Gomes e eu a conheci. Minhas madeixas agradecem até hoje.
Em tempo: Se alguém lembrar quem foi o profissional, não publique no final do texto, por favor (kkk). Manteremos o segredo. Afinal, a arrogância dele o afundou. A última notícia que tive é de que ele era funcionário de um pequeno salão de bairro e tinha raros clientes — apenas idosas de cabelo de capacete.
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| Isab-El Cristina |
Isab-El Cristina Soares é poeta, membro do Clube Literário de Gravataí, autora de 6 livros. Graduada em Letras/ Literaturas, pós-graduada em Libras, é Diretora Cultural do ColetiveArts.
Escute o episódio do podcast Coletive Som gravado com Isab-El , clicando Aqui.
Facebook: Isab-El Cristina Soares
Instagram: @isab_el_cristina
"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."
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| Arte:Waldemar Max |
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