Reflexões de um Inconformado - Pensamentos Incendiários

 É tanta desgraça que nem sei por onde começar

Levanto atordoado com mais uma noite mal dormida. Acendo um cigarro enquanto penso em parar de fumar. Vejo um resto de conhaque no copo sobre a mesa. Giro diante dos olhos, pensando sobre a vida e o que tá rolando no mundo. São guerras, misérias mil, fome, devastação...

Viro o resto de conhaque de uma só vez. Sinto o aperto na boca do estômago. Lembro das antigas propagandas de bebidas alcoólicas. Após imagens de trabalhadores executando alguma atividade penosa, na cena seguinte estavam em um ambiente descontraído e a voz agradável sentenciava "Deu duro, tome um Dreher". E tinha também aquela da 51 que era "Uma boa ideia". A do Velho Barreiro era das mais ardilosas. "Chama o velho que vem coisa boa". Daí o cara que estava pescando

fisgava um peixe enorme, o outro conseguia a modelo... Todo mundo com a melhor disposição física e mental. Completamente diferente da realidade, onde alcoólatras morrem solitários e decadentes.

Lembro de certa vez, ainda adolescente, quando Podrão  conseguiu furtar a garrafa de Velho Barreiro do mercado que ficava perto da nossa casa. Eu já estava acostumado e dei um gole profundo. Ele deu um gole pequeno e fez uma careta terrível. Após uma chuva de cuspes no chão, esse companheiro das primeiras aventuras disseram que "Porra... Na televisão parece até gostoso. Todo mundo tá sorridente e só acontece coisa boa depois que o cara toma." Nesse dia ele começou a entender1 que passar na tv e ser real são coisas completamente diferentes. Nunca entendi porque as pessoas confiam tanto no que é dito nas telas deformadoras da realidade. Mas, voltando a Podrão, na ocasião também sacou que a publicidade é uma atividade tão criminosa quanto todas quando servem a certos interesses.

As propagandas de cerveja eram um espetáculo a parte. Homens e mulheres na praia, com roupas de banho, corpos esculturais... festa, alegria... Nada parecido com a realidade. Só mais mentiras, mais ilusões. Afinal, onde estavam as famosas barrigas de cerveja nesses comerciais?

"Um verdadeiro e gostoso fortificante" Dizia a propaganda da cerveja

Dei aquela tragada no cigarro. A tosse começou e não parava mais. A indústria tabagista também investiu alto na propaganda e marketing. Carros de corrida sustentando a marca do cigarro patrocinador preenchiam as telas das tvs em cada evento de fórmula 1.

Existiam propagandas bizarras, como a do Free, onde o cara escalava uma cachoeira enorme e, ao chegar lá em cima, acendia um cigarro. "FREE, sinta o sabor de ser livre." (O sabor ou o prazer? Não lembro bem... A memória me falha.).

E o Cowboy da Marlboro? Marlboro Man foi a campanha publicitária criada em 1954 que transformou a marca em líder mundial de vendas. Vários modelos fizeram o papel do cowboy e alguns deles morreram de doenças pulmonares ligadas ao tabagismo.

Estes são apenas alguns exemplos que me vieram a mente agora, mas este tipo de publicidade perversa e assassina acompanha a indústria do álcool e cigarro desde sempre, usando como bandeira argumentos falsos e sedutores, distorcendo a realidade para aumentar as vendas e garantir o maldito lucro, custe o que custar. Até o cinema foi usado para isso, criando tipos charmosos e tidos como bem sucedidos que bebem e fumam como quem goza a cada movimento e faz os demais gozarem quando veem estes passarem. Tipos rebeldes se desmanchando em excessos, servindo de modelo para adolescentes cabeças ocas que acabam por seguir mitos e modelos falsos e vazios. A verdadeira rebeldia deveria ser exatamente o oposto - Se virar contra o que o sistema tenta impor via lavagem cerebral, não enriquecer estes malditos que lucram com o mercado da doença e da morte.

E quando a pessoa adoece e tenta mover uma ação responsabilizando quem enriquece com toda essa farsa mortal, eles dizem que foi escolha de quem fumou ou bebeu. Quando se procura um médico, por vezes este fala como se a vítima fosse culpada por suas escolhas.

Cigarrinhos de chocolate vendido para crianças brincarem de fumante, adquirir o hábito e ter memória afetiva

Mas será que ninguém consegue ver a verdade? E que verdade seria essa? Começarei respondendo primeiro a segunda pergunta. A verdade é que o cara foi enganado por toda uma estrutura que construiu uma cultura a sua volta. Foi montado todo um show de ilusionismo, criada uma ideia e armadilhas foram espalhadas por todas as partes. Em algum momento ele caiu em uma delas.

Os que recriminam as vítimas como se fossem culpados também não passam de manipulados repetindo frases feitas sem a menor capacidade de reflexão sobre a ideia que está ajudando a propagar. Os que estão por dentro do esquema fazem isso única e exclusivamente para tirarem a responsabilidade de suas costas e continuarem suas atividades. Eles sabem exatamente o que estão fazendo e o que está acontecendo.

Mas as pessoas podem dizer que isso já passou e que hoje estamos em uma nova época, que atualmente os cigarros vem com os avisos em suas caixas e tal... Que a publicidade não atua mais dessa forma... Daí tenho de dizer aquele NÃO SE ENGANE, MEU AMIGO. Tudo isso que você vê hoje em matéria de avisos sobre os malefícios do cigarro e do álcool, não é fruto da consciência da indústria da morte. Como sempre, a mudança nunca vem de cima. Pelo contrário. Os de cima resistem ao máximo com seu conservadorismo doentio para que tudo continue como está para manter seus privilégios, o lucro e a exploração dos de baixo. Mas a movimentação de parentes das vítimas e ativistas atentos, além de processos movidos pelas próprias vítimas, vão pressionando os que tiram proveito até desse tipo de perversidade, conseguindo reverter certas situações.  Foi assim com a escravidão, com os direitos trabalhistas e também com os avisos no cigarro, entre outras medidas que limitaram a publicidade do cigarro e bebidas alcoólicas e informações que mostram a periculosidade e letalidade no consumo dessas substâncias.

Observando atentamente nossos tempos, vemos as mesmas táticas sendo usadas. Como não colam mais com as substâncias aqui citadas, esta publicidade criminosa vem sendo aplicada em atividades como os fast foods, que além de vender algo de baixa qualidade que nunca deveria ser chamado de comida e muito menos alimento, ainda explora ao máximo seus funcionários e paga salários deprimentes.  Outro exemplo seriam os jogos de apostas, como o Tigrinho e o Brazino. Estes jogos estão sugando as pessoas com promessas mentirosas de ganhos e possibilidades que encantam aos desavisados. E a desculpa continua sendo a liberdade de escolha do usuário.  Mais o problema ainda é o mesmo. As pessoas continuam sendo ludibriadas e não se pode pensar em escolhas quando estão pintando merda de dourado e vendendo como se fossem barras de ouro. O que estão fazendo é se aproveitar da crença, da boa-fé e do desespero das pessoas, usando técnicas de manipulação e controle.

Mas, veja bem, não estou pregando o puritanismo ou o proibicionismo. Quem me conhece ou acompanha meu trabalho sabe que passo longe disso. Estou falando sobre a falta de limites dos capitalistas para acumular seu tão adorado deus dinheiro, se eximindo de qualquer responsabilidade por suas atividades criminosas.

Espera um pouco. É isso. Já sei por onde começar e o caminho a seguir nesta sétima coluna. 

 Sobre álcool, mentiras, cigarros, morte, dinheiro sujo e outras barbaridades dos ditos civilizados

 Levanto atordoado com mais uma noite mal dormida. Acendo um...


Para saber mais sobre o assunto:

- O tabagismo é a principal causa de morte evitável no mundo https://cccancer.net/o-tabagismo-e-a-principal-causa-de-morte-evitavel-no-mundo/

- CIGARRO E MORTE! ATENÇÃO! Vício ainda mata 443 pessoas por dia no Brasil


- Álcool e câncer? Bebidas alcoólicas têm relação com pelo menos seis tipos da doença, diz estudo https://aratuon.com.br/saude/alcool-e-cancer-bebidas-alcoolicas-tem-relacao-com-pelo-menos-seis-tipos-da-doenca-diz-estudo/#goog_rewarded



O escritor Fabio da Silva Barbosa, um dos membros mais antigos e ativos do ColetiveArts  (foi dele a coluna Malditos Teclados Bailarinos).Dono de um olhar cirúrgico, Fabio é um verdadeiro cronista do underground, caminha pelos becos e bares da vida, que depois transforma em textos que são verdadeiras pedradas nas janelas dos "donos da moral e dos bons costumes". Também é dele um dos maiores fanzines do Brasil, o seminal Reboco Caído.



"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

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1 Comentários

  1. Oi, Fábio, sou a Isab-El. Sim, lembro das propagandas de cigarro q mostravam casais lindos, bem vestidos, carros luxuosos... a própria imagem da vitória. Comecei a fumar aos 15 anos influenciada pela propaganda do cigarro Charme e do Ella. Qdo acendia o cigarro me vinha a mente a música "Ella sou eu, sou eu..." Fumar era sinônimo de liberdade e poder. Fumei por 39 anos a média de 5 carteiras por dia. No final fo ano completo 10 anos sem fumar. É muito difícil parar, mas consegui. Aliás eu tinha o hábito desde pequenininha qdo fazia de conta que fumava com aqueles cigarros de chocolate. Tudo induz. Tufo contribui p perpetuar o vício. Ótimo texto.

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