ENTRE RAZÕES E EMOÇÕES

 

O preço da segurança em um frasco de spray (Prós E Contras)

A polêmica que tomou conta das calçadas e das redes sociais nos últimos tempos tem cheiro forte e arde nos olhos. Desde que a Lei 15.474/2026 abriu as portas para que mulheres maiores de 18 anos carreguem na bolsa os famosos aerossóis de extratos vegetais para defesa pessoal, o Brasil se dividiu. O debate ferve entre especialistas de gravata, defensores de direitos humanos e quem realmente sente o medo na pele ao caminhar por uma rua escura.
Por um lado, há um sopro de alívio. Quem defende a medida enxerga no pequeno frasco uma chance real de reação, uma ferramenta de menor potencial ofensivo que pode dar à mulher os segundos necessários para escapar de uma abordagem violenta ou de uma importunação sexual. Afinal, diante do perigo iminente, ter uma escolha na palma da mão parece melhor do que o desamparo absoluto. Além disso, a nova regra federal unificou o jogo, substituindo aquela colcha de retalhos de leis estaduais que ninguém entendia direito.
Por outro lado, o ceticismo caminha lado a lado com a novidade. O maior medo dos especialistas é a armadilha da falsa sensação de segurança. Um frasco de spray na bolsa pode, num ímpeto de coragem, fazer alguém enfrentar um perigo desproporcional, como um assaltante armado com fogo — um erro de cálculo que pode ser fatal. Há também quem olhe para a raiz do problema e critique: legalizar o spray é enxugar gelo, um curativo paliativo que ignora a engrenagem complexa da violência urbana e da misoginia estrutural. Sem contar o risco da banalização, onde qualquer briga de trânsito ou discussão de bar termine em uma nuvem ardente, transformando a vítima em ré perante a justiça.
A lei tenta cercar o imponderável com regras rígidas: o porte é restrito a mulheres sem antecedentes criminais e a eficácia exige precisão — o jato deve mirar o rosto do agressor a uma distância mínima de um metro e meio. Na teoria do papel, funciona perfeitamente. Na prática do desespero, a história é outra. No fim das contas, a novidade exige muito mais do que o dedo no gatilho; exige cautela extrema. Caso contrário, o feitiço pode virar contra o feiticeiro, e o frasco que deveria ser um escudo vira apenas o estopim de uma tragédia ainda maior.


Mabel Südikum Gomes


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"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

Arte:Waldemar Max
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