Abra a janela
Eu estava contando uma história linda sobre a superação dos medos, cheia de nuances e uma entonação precisa para cada cena, e a viagem ao mundo da imaginação começou. Diante de mim, crianças de 7 e 8 anos, em uma escola localizada em uma comunidade periférica. Pensei que seria mais um projeto, mais um encontro, mais uma história compartilhada que deixa marcas e que me preenche de marcas.
Mas, no final daquela história, algo aconteceu e foi um pouco diferente.
— Eu sou criado pela minha vó e pelo meu vô. Minha mãe mora na rua por causa das drogas.
Fixei meus olhos nele. Ele percebeu minha emoção. Ao seu lado, uma menina, sua coleguinha, em um gesto silencioso e cheio de amor, fez carinho em seus cabelos.
Naquele momento, apenas perguntei:
— Você quer falar mais alguma coisa?
E ele continuou:
— Meu pai também mora na minha casa, mas ele sai para trabalhar e não volta mais. Fica uns dez dias fora. Todos ficamos preocupados até que um dia ele volta e nada fala. E eu tenho duas irmãs, uma pequena...
Meu coração se apertou. Tudo o que eu podia fazer naquele instante era acolhê-lo.
Então, ele começou a falar do amor que sentia pela avó e disse que gostaria de chamá-la de mãe.
Perguntei:
— Você já falou isso para ela?
Ele respondeu:
— Tenho medo.
Foi então que voltamos a falar sobre a superação dos medos. Com todo o cuidado e carinho, falei que talvez, aos poucos, quando se sentisse preparado, pudesse encontrar um jeitinho de dizer a ela o que guardava dentro do coração.
Ele gostou da ideia.
Então compartilhei um pouco da minha própria história. Disse a ele que eu também precisei superar muitas coisas desde criança e deixei um recado especial para ele e para todos os seus colegas:
Não parem de estudar. Continuem. Porque o conhecimento faz com que vocês aprendam, ensinem e transformem as suas próprias vidas. Foi assim que aconteceu comigo.
Ele sorriu.
Fizemos algumas brincadeiras, rimos juntos e chegou o momento da despedida. Dei um livro para ele.
Então ele me abraçou com uma ternura que jamais esquecerei.
E, naquele abraço, eu também encontrei a minha pequena Ayo.
Porque contar histórias e escrever histórias tem fortalecido infâncias. Mas A Janela de Ayo é muito mais do que uma história. É uma ponte.
Uma ponte para quem consegue olhar além das aparências e enxergar o brilho, a pureza, os medos e, principalmente, os sonhos que vivem dentro de uma criança.
É preciso fortalecer histórias.
Transformar medos em coragem.
Construir pontes.
Abrir caminhos.
E permitir que cada criança encontre a sua própria janela de sonhos.
Sonhos que podem — e devem — ser realizados.
Às vezes, tudo o que uma criança precisa é que alguém a escute, a acolha e a ajude a acreditar que existe um outro caminho possível.
E talvez a mudança comece assim:
abrindo uma janela.
Não amanhã.
Não depois.
Hoje. E abra a janela agora.
Porque há sonhos esperando apenas uma oportunidade para entrar pela janela e iluminar uma vida inteira.
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| Josiane Prestes |
Josiane Prestes é escritora, compositora , cantora, professora alfabetizadora, pedagoga, especialista em Gestão e Orientação Educacional e multiartista de Gravataí (RS). Assessora pedagógica na SMED Gravataí, atua em defesa da educação pública de qualidade, equidade e valorização das relações étnico-raciais (ERER). Autora de A Janela de Ayo (2025), integra o Coletivo de Escritores Negros e participa das obras Meu Corpo Negro e Dois Olhares de Mulher. Filha, mãe, esposa e ativista dos direitos humanos, transforma arte, ancestralidade e educação em caminhos de resistência, pertencimento e transformação social.
Facebook: Josiane Prestes
Instagram: @josiane_prestes
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| Arte:Waldemar Max |


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1 Comentários
Excelente!!! 👏🏻 Ótimos textos com reflexões profundas!
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