DR. QUIRINO... SINTO TUA FALTA

Dia 9 de agosto de 2026 – 0h26 – Dia dos Pais.
Mais um Dia dos Pais. Faz dezesseis anos que não posso te abraçar, dar um beijo ou dizer que te amo. Sem nenhum aviso, tu foste embora em novembro de 2009 e me deixaste sozinha...
Pai, sei que não podes ler um blog. Onde estás não deve ter internet. Não sei como é aí; deve ser muito bonito, mas deve existir algum processo de apagão da memória, afinal, ninguém lembra da vida anterior. Mesmo assim, continuo escrevendo. Quem sabe, por uma bênção, Olorun ou Deus permita que tu leias e me perdoes...
Sabe, pai, eu perdi muito tempo para te mostrar o meu amor. Filha de pais separados, com uma mãe esquizofrênica (só diagnosticada aos oitenta anos), possessiva e autoritária, eu não tinha espaço para demonstrar o que sentia. E eu, imatura e totalmente dominada por ela, não conseguia ver o quanto te machucava. Mas sei que isso não justifica a minha culpa.
Eu te via como um cara sem problemas. Ao contrário dela, tu nunca me trouxeste problemas; pelo contrário, sempre dizias estar bem. E eu, boba, nunca percebi o quanto sofrias. Muitas foram as vezes em que te recolhi caído na calçada, bêbado. Eu ficava muito braba, te xingava, dizia que te odiava... mas era porque eu queria que tu largasses o álcool. Sempre te amei e queria um pai inteiro, sem precisar dividi-lo com a garrafa. Hoje entendo que eu deveria ter te dado apoio, não críticas.
A tua presença sempre foi inquestionável. Logo que se separaram, tu ias toda quarta, sábado e domingo me ver; depois, ias quase todos os dias. A mãe não te deixava entrar em casa, então ficávamos sentados na escada da porta da frente, conversando. Toda quinzena tu me davas a minha mesada. Sim, tenho orgulho de ser filha de um homem de quem nunca foi preciso pedir pensão alimentícia; tu tinhas a consciência de que um filho custa. A mãe nunca precisou ir à Justiça para requerer nada.
Aos seis anos, tu já me exigias posicionamento político. Falavas sempre que querias que eu fosse igual à filha de um político que admiravas — acho que era o Carlos Lacerda acompanhando o pai, ou seria o Getúlio Vargas? Tu me querias ao teu lado, lutando pelo teu ideal. Por isso, me introduziste na política em tão tenra idade.
Eu brigava muito contigo. Queria que tu me calasses, que impusesses a tua autoridade de pai. Não sei por que eu buscava esse embate. Mas o teu amor era tão grande que tu só olhavas dentro dos meus olhos e ficavas quieto. Isso, hoje, me dói muito. Acho que eu queria que tu brigasses com a mãe e me levasses embora contigo; eu te achava fraco por não lutar por isso. Mas não era fraqueza, era amor. E a idiota aqui não percebia.
Tu me acompanhaste em todos os momentos da minha vida, sempre de maneira discreta, colocando-te um passo atrás. Tu eras o meu apoio, o meu esteio, a minha escola, a minha base. O pai que nunca levantou a mão para me dar um tapa, nunca me xingou, nem me colocou de castigo; apenas me olhava. Aquele olhar triste doía forte dentro de mim, mas eu não sabia como me expressar.
Filho de pais adotivos, alcoólatras e rudes, lá do meio do mato, tu nunca aprendeste a fazer um carinho ou a demonstrar afeto. Foi só quando meu primeiro filho nasceu que tive a coragem de te dar um beijo no rosto e dizer: "Te amo, pai". Parecia que tu ias desmanchar ou desmaiar. Larguei meu filho prematuro no teu colo e abracei o teu pescoço; tuas lágrimas rolavam sem parar. Foi quando nasci como mãe que aprendi a ser filha.
Pai, eu não soube ser filha. Não aprendi a te mostrar o quanto sempre te amei, e isso está doendo demais. Vejo as pessoas falarem que “mãe é uma só”, mas eu tive duas: minha avó fez o papel de mãe até eu completar 12 anos, quando ela partiu. Mas pai eu só tive um, e foi o pai mais maravilhoso que Deus poderia ter me dado.
Eu queria ter tido mais tempo. Queria voltar no tempo e começar tudo de novo. Aliás, como a gente erra quando é jovem... E depois se arrepende.
Uma vez, eu ainda era adolescente, muito braba por ter que te buscar caído em uma das ruas do IAPI, no outro dia — justamente no Dia dos Pais —, eu te chamei de “cachaceiro”. Tu simplesmente baixaste os olhos e disseste: "Eu quero parar de beber". Poxa, eu deveria ter te abraçado, te dado um beijo e dito: "Estou aqui para te apoiar, pai". Mas não fiz. Na época, eu não sabia o que um vício significa, o quão difícil é largá-lo e que o alcoolismo é uma doença. Vivia sob a influência da Dona Mariza, repetindo que beber era falta de caráter.
Ah, pai, por que essa saudade nunca diminui? Por que essa dor não passa? Por que me deixei influenciar? Por que tu não foste embora viver a tua vida longe de mim? Acredito que serias muito mais feliz. Quantos homens abandonam seus filhos e vivem suas vidas, deixando o trauma do abandono para o filho resolver? Tu foste um grande homem, um grande pai que nunca me abandonou, nunca me deixou faltar nada, muito menos amor. Tu me amaste incondicionalmente, abrindo mão da tua própria vida e da tua felicidade só para estar ao meu lado e me apoiar quando eu precisasse.
Meu gnominho, como eu carinhosamente te chamava por seres de estatura baixa e gordinho, tu foste um pai gigante. Eu gostaria muito de ter a honra de ser tua filha na próxima encarnação. Sei que sofrerei o apagão para não lembrar desta vida, mas peço a Olorun que não apague a dor que estou sentindo, pois quero ser a filha que tu mereces. É só lembrando o quanto estou chorando agora que não errarei novamente.
Dr. Quirino Soares, meu herói, mais um Dia dos Pais sem a tua presença física, mas com o coração cheio de amor e gratidão por ter tido o melhor pai do mundo.
Encerro este relato cantando a música de que tu mais gostavas de ouvir na minha vitrola, em volume baixo, discreto, do compositor baiano Ederaldo Gentil: "O ouro afunda no mar / madeira fica por cima / ostra nasce do lodo / gerando pérolas finas / não queria ser o mar, me bastava a fonte / muito menos ser a rosa, simplesmente o espinho / não queria ser caminho, porém o atalho / muito menos ser a chuva, apenas o orvalho / não queria ser o dia, só a alvorada / muito menos ser o campo, me bastava o grão / não queria ser a vida, porém o momento / muito menos ser concerto, apenas a canção."
Assim era o Dr. Quirino: a simplicidade de quem passou a vida inteira amando e não foi amado o suficiente. O grande homem que se fez grande por parecer pequeno.
Te amo, pai. Quero ser tua filha novamente.

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| Isab-El Cristina |
Isab-El Cristina Soares é poeta, membro do Clube Literário de Gravataí, autora de 6 livros. Graduada em Letras/ Literaturas, pós-graduada em Libras, é Diretora Cultural do ColetiveArts.
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"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."
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| Arte:Waldemar Max |
08 ANOS DE VIDA,
SENDO A MAÇÃ DE ALGUNS,
EU SOU A MOSCA QUE POUSOU
EM SUA SOPA, EU SOU A MOSCA
NO SEU PRATO A
ZUMBIZAR!
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1 Comentários
Lindo texto, parabéns. - Nestor
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