Eternamente João e Teresa

 Pedras de mágoas 

Talvez esta seja minha primeira lembrança da infância.

Não sei ao certo quantos anos eu tinha, mas acredito que eram uns quatro. Era inverno e fazia muito frio. Não me lembro de os meus irmãos estarem em casa. Eu vestia um macaquinho jeans colorido, com uma estampa cheia de lápis de cor.
Meus pais estavam comigo diante do fogão a lenha. Fazia frio, chovia e a casa era silenciosa. A chaleira fervia sobre o fogão enquanto amendoins assavam na chapa. Meu pai, João, me ensinava a contar. Eu estava sentada no mesmo banquinho que ele, olhando para o fogo e contando os dedos das minhas mãos.
Foi quando a chuva aumentou e começou a cair granizo. Minha mãe olhou para fora e exclamou:
— Olha o tamanho das pedras, teu pai!
Quando ela estava feliz com ele, dizia "teu pai". Quando estava brava, era "João".
Eles pegaram algumas pedras de gelo para que eu pudesse vê-las. Fiquei encantada: o céu estava mandando pedras. Foi então que minha mãe disse que Deus estava muito triste. Na mesma hora, fiquei triste também e quis saber por quê.
Ela respondeu que a chuva eram as lágrimas de Deus. As trovoadas aconteciam quando Ele ficava bravo; os relâmpagos eram como gritos de desabafo. De tempos em tempos, Deus se entristecia por causa da maldade dos homens e das crianças que se comportavam mal. Em resumo, explicou que tudo o que fazíamos de errado, todos os pecados, resultava em uma chuva pesada. E que chover pedras era ainda pior, porque elas eram as mágoas de Deus.
Olhei para o meu pai e perguntei:
— Ele está triste, bravo e magoado, pai?
Meu pai olhou para minha mãe e respondeu:
— Sim. A gente faz muita coisa errada e acaba deixando Deus triste. — Depois ele disse: — Mas olha as pedras na tua mão.
Olhei. Elas haviam derretido. Fiquei surpresa.
Então minha mãe falou:
— Assim são as mágoas de Deus. Elas derretem, desaparecem em uma mãozinha quente, em um coração aquecido pelo amor. Deus não castiga a gente; a gente é que acaba se castigando. Erramos, e Ele sempre nos perdoa, porque o amor é maior do que qualquer mágoa. E tudo o que acontece em um dia de chuva também acontece dentro do nosso coração. A gente fica triste, chora, briga, se magoa... Mas, depois de um tempo, tudo passa. A chuva vai embora, o arco-íris aparece no céu e toda a água que caiu faz bem à natureza e também a nós.
Fiquei pensando naquelas palavras, sem entender quase nada. Mas guardei aquela tarde para sempre.
Hoje, mais de trinta e oito anos depois, voltou a chover. Está frio e caiu granizo. Por coincidência, também estou triste, brava e magoada. Mas as mágoas se derretem em um coração quente.
Hoje eu entendi, mãe.
Chorei muito. Sozinha. Lembrando daquele dia. E, em meus devaneios, consegui voltar no tempo, vencer a morte e ver os dois sorrindo para mim. Mais uma vez.
DIOVANA RODRIGUES

Me chamo Diovana Rodrigues, tenho 42 anos e sou mãe de três filhos. Trabalho com segurança privada e escrevo desde a adolescência; a escrita sempre foi o meu refúgio.Sou autora dos livros Autópsia, Rosa Negra, Confrontando a Saudade e Diário de uma Amante (formato virtual), além de ter participado de diversas coletâneas literárias. Quando iniciei no clube literário, eu tinha um livreto chamado Janeiro sem Sol para divulgar os meus versos. Hoje, sou autora de muitas poesias — a maioria nascida como forma de desabafo. Uma delas, inclusive, deu origem ao meu livro virtual Diário de uma Amante, que tem seus contos eróticos divulgados todas as sextas-feiras pelo ColetiveArts. Como poetisa, já conquistei alguns concursos e homenagens, o que me traz imensa felicidade. Minha caminhada literária começou cedo e sigo escrevendo com amor. Sei que nada é fácil, mas também não é impossível. Este é um trabalho diferente, pois aqui quero eternizar as lembranças dos meus pais. Eles foram, e esteticamente continuam sendo, mais do que tudo para mim. Talvez eu escreva por eles, porque sempre fantasiei o mundo ao meu redor. Escrevo para homenageá-los, pois sei o quanto tinham orgulho de mim. É por isso que sigo lutando, buscando evoluir e crescer como pessoa: porque preciso honrar a memória deles.


"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."

08 ANOS DE VIDA DEDICADOS 
À ARTE E CULTURA!


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2 Comentários

  1. Oi, Diovana, sou a Isab-El. Que texto lindo, cheio de boas lembranças, cheio de amor. Parabéns pela nova página. Bju.

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  2. Que lindo texto! Parabéns. - Nestor

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