Talvez a maior aventura da vida da Amante tenha sido ser ela mesma. O que ela se transformou com o tempo: uma mulher que dava medo nos homens. Mas muitas são as amantes por aí. Mulheres que decidiram viver. Cada uma sabe o preço que pagou e como chegou até esta liberdade.
Vejo mulheres casadas reclamando do casamento, buscando fora um motivo para continuar casadas. Vejo mulheres com medo de se separar, medo de não ter a mesma vida sozinha. Também vejo mulheres presas a relações falidas, mas relações em que se sentem seguras. Há todo tipo de relação hoje. Mulheres que sonharam com o "felizes para sempre" apanhando dentro de casa, aguentando traições, humilhações, drogas, alcoolismo e todo tipo de desrespeito. Não vemos mais o amor nas relações. Mas, mesmo assim, para muitas pessoas é feio, é ruim se separar. Algumas por dinheiro, outras por carência, algumas por medo... Realmente não é fácil sair de um casamento. Os pesos são muitos.
Quando a Amante saiu de seu casamento, sabia que não seria fácil. Não foi. Trabalhou, estudou, criou a filha, endureceu para a vida e se transformou na mulher que conhecemos: aquela do riso frouxo; aquela que não tem problemas em dizer não, em falar de sexo, em beber, em usar a roupa que quiser. Livre para amar e ser amada. Livre dos rótulos de "boa menina", embora ainda sonhasse com contos de fadas. O olhar sedutor, com o tempo, passou a dar medo nos homens, e quem com ela se envolvia nunca estava completo. Afinal, ela era a Amante.
Em meio a tantos, quase chegou alguém. O interesse dele era o mesmo: ficar uma vez ou duas com ela. O problema foi conhecê-la. Quatro meses de conversa fizeram ele ver um pouco mais do que "só bonita e gostosa". Quando finalmente se encontraram para transar, não foi uma transa, foi uma colisão. Foi desejo não só de corpo, foi de alma. Uma primeira vez que deveria ter sido única. Teve sexo bem feito, teve orgasmos múltiplos e teve a vontade de uma segunda vez... que se repetiu na mesma semana. Eles tinham fome um do outro. O suor deles banhava os lençóis e as horas passavam depressa. Aquele corpo moreno e suado sobre ela exalava tesão, paixão. As pernas trêmulas presas ao corpo dele. Tudo era quase perfeito. O cavalgar fazendo sexo anal olhando-se nos olhos fazia com que eles tivessem uma conexão maior.
O tempo foi passando, passando, e o pior aconteceu: um amor nasceu. Mas, no jardim do peito dele, não havia espaço para aquela flor. Ele, que só queria uma transa com aquela mulher que parecia fácil, teve algo que nunca imaginou. Quanto mais os meses passavam, mais se envolviam. Mas ela continuava a ser ela: a amante. E dele, de fato, foi! A mulher livre, dona de si e da verdade, se viu presa, amando. Mas ela não havia mudado e sempre soube que ele jamais seria dela. Afinal, ela era ela.
O tempo transformou o sexo em amor. E fazer sexo é muito bom, mas fazer amor é melhor. De repente, a mulher que transava e saía, transava e queria colo, abraço, afago. Pedia chocolate, fazia manha. Antes do sexo, um filme, um chimarrão, um chope. Tudo foi se transformando. Ela, que nunca abria sua casa, abriu a casa e o coração para ele. E fizeram amor sem medo e sem pudor, por onde era possível e impossível também. Ele, sempre com medo; ela, sempre disposta a mais uma loucura. E foi assim que transaram em um tronco de árvore, no rio, em matas e morros, em banheiros desconhecidos e até em um outdoor na Freeway. E por falar em trânsito, eles se masturbavam no trânsito, em via pública. Publicavam suas loucuras. Era muito bom. Mas não era melhor do que quando faziam amor na cama e gritavam de desejo, suando um sobre o outro, gozando juntos e depois adormecendo abraçados.
Muitas vezes ela chorou nos braços dele sem ele ver. Pois, a cada dia que passava, ela sentia que ele estava indo. Não havia o que fazer. Ela era a amante. Livre demais, com histórias demais para ser a escolha de alguém. Ele sabia que ela era muito mais do que sexy. Ele conheceu a amiga, a mãe, a filha, a cozinheira, a profissional. Mas, ainda assim, ela era a amante. Por conhecê-la bem, ele lhe deu um apelido: Gata. E dedicava a ela a música "Gatinha Manhosa", do Erasmo Carlos.
Palavras têm poder. Ela realmente virou uma gata. Uma felina braba que perdeu algumas vidas tentando sobreviver às maldades que esse amor trouxe para ela. E de tudo o que fizeram a ela por amar, ela não se vingou. Afinal, a única culpada era ela mesma por ter se apaixonado, por ter amado um homem que jamais a escolheria. Afinal, ela era ela. E ser a Amante não era fácil.
E, como tudo na vida tem um começo, um meio e um fim, chegou o dia do fim. Ela dizia: "Não se aproxima, não chega perto de mim", falava desviando os olhos, porque eles não iriam mentir. Quando ele finalmente saiu, ela caiu no choro, pedindo: "Volta, volta, por favor". Mas já era tarde.
Ela sabia que precisava se levantar. Levantou. Seguiu seu caminho como sempre fez: maquiagem, batom vermelho e vontade de viver. Quando chega a noite, mal consegue dormir; ainda sonha com o corpo dele sobre o dela. Goza sozinha na madrugada, abraça o travesseiro e dorme, como uma gata no cio. Pode miar alto, que não será ouvida.
Mas como nada é para sempre, esta história é de uma mulher de verdade que sabe o peso que tem em ser ela, mas que, mesmo assim, não muda. Porque, de todos os rótulos impostos a ela, o que ela mais gostou foi de ser chamada de gata.
Me chamo Diovana, tenho 40 anos, me apaixonei pela poesia com 13 anos de idade, e desde então escrevo. A poesia se tornou uma psicóloga para mim, um diário de desabafo. Não consigo escrever sem meu coração mandar. Não sei simplesmente sentar e pensar no que vou escrever. Simplesmente escrevo, brinco, eu escrevo sem pensar. Sou mãe, tenho três filhos, Mithelli que está com 22 anos e os gêmeos de 13 anos. Parece meio óbvio dizer que são tudo que tenho, mas é isso. São meu tudo. Trabalho com segurança privada, minha especialização dentro da área veio depois de anos. É algo que gosto de fazer, assim como cozinhar. Sou uma mulher de gosto simples, porém, de opiniões fortes. Sigo minha vida de forma leve, aprendendo, caindo e levantando ancorada em minha fé. Sou umbandista com muito amor e só tenho a agradecer às minhas frenteiras. Elas me ensinaram que cair é inevitável mas ficar no chão é opcional. Essa sou eu, essa é Diovana Rodrigues.
Oi, sou a Isab-El. História de toda mulher dona de si, dona da sua história, que se apaixona. O amor dói quando se é vista como "amante", ou como livre, ou como indomável. Parabéns pelo texto. Retrata muitas histórias doloridas e lindas. Bjuuuuu
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Oi, sou a Isab-El. História de toda mulher dona de si, dona da sua história, que se apaixona. O amor dói quando se é vista como "amante", ou como livre, ou como indomável. Parabéns pelo texto. Retrata muitas histórias doloridas e lindas. Bjuuuuu
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