Sabemos que a Amante sempre gostou de homens mais jovens, e muitas foram suas histórias com eles. Destas muitas, algumas lhe trouxeram dor de cabeça, pois certas mães se ofendiam e tinham preconceitos devido às diferenças de idade.
Preconceito, pré-conceito!
Independente de como seja, ser preconceituoso é ruim, e sofrer com isso é ainda pior. Porém, só sabe de verdade o quanto o preconceito fere quem sofre com ele. A Amante nunca deu atenção a isso; embora ficasse brava, não se ofendia. Em questão de idade, ela brincava que gostava de meninos, mas só se relacionava com eles porque eles gostavam dela e a procuravam. Isso significava que, mesmo mais velha, era muito bem-vista pelos mais novos.
Quando o preconceito era racial, ela também não se importava, pois nada do que falassem fazia com que se sentisse menosprezada. Ela era sua maior fã: sua cor, sua história, sua fisionomia, seus ancestrais, sua religião... Tudo era motivo de orgulho.
E falando em orgulho, preconceito e religião, hoje vamos a uma história que teve tudo isso e começou com o filho do pastor.
A Amante tinha alguns afilhados e, entre eles, uma menina — já mulher — que ela havia batizado e crismado na Igreja Católica. Ao crescer, a jovem conheceu uma igreja evangélica e trocou de fé. Batizou-se nas águas do rio Gravataí e passou a frequentar os cultos como cristã. Para a Amante e para ela, nada mudou, já que o amor estava além da crença. Quando a afilhada foi pedida em casamento, a felicidade foi geral na família; pela primeira vez, eles teriam um casamento cristão.
O evento teria padrinhos e madrinhas e, mais uma vez, a afilhada quis ter a mesma madrinha. Seu par seria o filho do pastor: um jovem de 27 anos que nunca tivera contato sexual com mulheres. Era um homem bonito, inteligente e que ajudava muitas pessoas dentro da igreja que seu pai pastoreava.
Quando ele viu a Amante pela primeira vez, ficou tímido. Viu uma mulher mais velha, com uma vaidade incomum, uma doçura estranha e uma sensualidade que ele nunca tinha presenciado. Ela não vestia nada demais: apenas uma calça jeans, um tênis branco e uma blusinha preta. Os cabelos caíam sobre os olhos, e as unhas e o batom eram vermelhos, como de costume. Nada de luxuoso. Mas, toda vez que ela falava, ele olhava para seus lábios, sem entender por que aquela mulher comum mexia tanto com ele.
Como seriam padrinhos, eles tinham encontros de ensaio e passaram a se ver com frequência. A cada dia o rapaz ficava mais curioso, a ponto de passar a sonhar com ela. Um dia, logo após um desses sonhos, chamou o pai e confessou:
— Pai, não sei o que está acontecendo, a madrinha da Ana não sai da minha cabeça. Sonho com ela, desejo-a. Tenho vontade de fazer amor com ela. O cheiro dela me atiça, nunca senti nada igual. Sonhei que ela beijava meu pênis. A boca dela me fascina.
O pastor ficou apavorado, pois o filho nunca havia falado de mulher; ele era prometido a Cristo e só se casaria com uma escolhida que também fosse cristã. "Tem algo de errado", pensou o pastor, tratando de afastar o filho dos ensaios e assumindo o seu lugar. Isso tudo aconteceu entre eles; a Amante nem desconfiava.
Chegou o dia de mais um ensaio e, no lugar do rapaz, foi o pai, que chegou abordando a Amante de forma arrogante. Ela apenas o ignorou. Quando o ensaio terminou, ele falou aos noivos que só faria a cerimônia de casamento depois que tirasse a Pombo Gira que a Amante trazia consigo.
A afilhada correu para contar à Amante, que, na mesma hora, foi até o pastor e pediu para conversarem em particular. Sozinhos, o pastor disparou:
— Tu seduziste meu filho. Tu tens contigo o espírito de uma vagabunda, mulher de rua, mundana. Mulher do Diabo.
A Amante respirou fundo e respondeu:
— Não seduzi teu filho, na verdade mal falei com ele. E não tenho essa mulher que o pastor diz que tenho.
Nesse momento, ele tocou a cabeça da Amante, gritando e ordenando que saísse a tal mulher mundana. No instante em que foi tocada, ela olhou nos olhos dele e sorriu. Assim como o filho, o pastor era um homem bonito. Enquanto ele gritava para expulsar o demônio, ela o olhava com desejo. O calor do corpo dela exalava. O pastor tirou o terno, ficando apenas de camisa branca e revelando os músculos. Sob a calça social, a Amante via o volume bem marcado.
O pastor orava e gritava, e ela imaginava. Já com o corpo ardendo de tesão, ela o puxou para si e o beijou. Aquele beijo o desmontou; ele não conseguiu parar e correspondeu com a mesma intensidade. Ela rasgou a camisa social dele, arranhou seu peito e, segurando-o pela gravata, cavalgou nele. Sentou-se com tanta vontade que ignorou o tamanho enorme daquele membro. Cavalgou até gozar, e ele gozou junto.
Mas, logo em seguida, ele recuou gritando:
— Capeta! Mundana! Vagabunda!
Ela riu e disse:
— Pastor, desde que entrou aqui, eu vi você me olhar e me desejar. Não provoquei teu filho e não provoquei você. Eu tenho, sim, uma Pombo Gira, que não é puta, não é mundana e tampouco vagabunda. Eu sou puta, eu gosto de sexo. Mas essa sou eu. Se eu beber, serei eu; se fumar, serei eu. Não ela. Eu fiz sexo contigo, não a minha Pombo Gira. Ela guarda minha vida, minha saúde e meu lar. O que faço de certo ou de errado é responsabilidade minha, não dela. Seria fácil dizer o contrário e culpar minhas entidades, mas isso é errado. Teu filho me desejou, você me desejou, e vocês dois resolveram botar a culpa em uma Pombo Gira porque é mais fácil, porque a sociedade já se acostumou com isso. Preconceito. Intolerância religiosa. Vocês falam muito mais em demônios do que em Deus. Pregam valores sem valores, baseando-se na falta de conhecimento. Eu sou pecadora, sim. Deus me fez assim e tento, dia após dia, melhorar como pessoa. Não sou melhor nem pior que ninguém.
A Amante falou tudo isso e ele permaneceu calado. Ela se vestiu e saiu. Pensou um pouco e voltou até o pastor, que continuava sentado, pensativo. Cogitou provocá-lo para transarem novamente, mas desistiu quando viu o filho dele se aproximar.
Passaram-se alguns dias, o casamento aconteceu e o pastor voltou a procurar a Amante. Mais uma vez, fizeram sexo como se o mundo fosse acabar. Continuaram a se encontrar e a gozar juntos quase todas as tardes, logo após o culto. Ele nunca admitiu o desejo pela Amante; sempre culpava a Pombo Gira. Até o dia em que ele a encontrou em uma encruzilhada. A Amante nunca soube o que a Pombo Gira disse a ele, mas, depois daquele dia, ele simplesmente sumiu.
Quase um ano depois, ela reencontrou o filho do pastor na casa de sua afilhada. Voltaram a conversar e, novamente, o rapaz ficou tímido, com medo dela. Percebendo o receio do jovem, ela tentou puxar assunto, foi quando ele disse:
— Meu pai me contou que o espírito que possuía o seu corpo era um dos mais fortes que ele já tinha enfrentado.
Ela apenas sorriu, tocou o rosto dele e o levou para o banheiro. Lá, no box do chuveiro, tirou a virgindade do rapaz. De pé, com as mãos na parede e a bunda empinada, apresentou-lhe o que era o verdadeiro tesão. Claro que o menino não foi nada parecido com o pai, mas foi gostoso.
Depois desse dia, ela sumiu. Afinal, nem todo mundo vê espíritos. E, para eles, ela era o próprio espírito do pecado: a luxúria em forma de mulher. O demônio de saia que surgiu em suas vidas para fazê-los pecar.
Somos seres humanos falhos; é muito mais fácil culpar o invisível do que assumir nossos próprios desejos.
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"O Demônio de Saia" é um texto de ficção publicado em nosso Diário de uma Amante.
Não se trata de uma provocação às igrejas evangélicas. Sou umbandista e não nego a minha fé, mas tenho profundo respeito por todas as religiões, pois entendo que, neste mundo, todos nós temos o nosso espaço. Para mim, Deus é um só.
No texto, não cito o nome de nenhuma Pombagira. Porém, aproveito este espaço para expressar minha profunda gratidão à Dona dos meus caminhos:
Maria Padilha das Almas.
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Me chamo Diovana, tenho 40 anos, me apaixonei pela poesia com 13 anos de idade, e desde então escrevo. A poesia se tornou uma psicóloga para mim, um diário de desabafo. Não consigo escrever sem meu coração mandar. Não sei simplesmente sentar e pensar no que vou escrever. Simplesmente escrevo, brinco, eu escrevo sem pensar. Sou mãe, tenho três filhos, Mithelli que está com 22 anos e os gêmeos de 13 anos. Parece meio óbvio dizer que são tudo que tenho, mas é isso. São meu tudo. Trabalho com segurança privada, minha especialização dentro da área veio depois de anos. É algo que gosto de fazer, assim como cozinhar. Sou uma mulher de gosto simples, porém, de opiniões fortes. Sigo minha vida de forma leve, aprendendo, caindo e levantando ancorada em minha fé. Sou umbandista com muito amor e só tenho a agradecer às minhas frenteiras. Elas me ensinaram que cair é inevitável mas ficar no chão é opcional. Essa sou eu, essa é Diovana Rodrigues.
"Quanto mais arte, menos violência. Quanto mais arte, mais consciência, menos ignorância."
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